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  • Beja Santos

Uma obra-prima do policial negro, com a chancela de Raymond Chandler


Mário Beja Santos: Um dos detetives privados de cunho lendário é Philip Marlowe, ele faz parte da melhor literatura de crime e mistério que saiu do punho de Raymond Chandler, prima pela tenacidade com que acompanha as suas investigações, vive na modéstia, gosta imenso de álcool, mesmo de manhã e cronicamente bebe umas boas xícaras de café de grão moído com ovos escalfados e pão torrado e barrado com manteiga. Tenho para mim nesta dimensão literária de detetive destemido, de vivência sóbria e despretensiosa, e sempre com o dinheiro contado, Philip Marlowe está destinado a ficar no pódio, mas para isso há que fazer justiça à fabulosa narrativa de Chandler, no género do policial negro só teve um concorrente à sua altura, em escrita vulcânica e brutal, iluminando a cena ao detetive justiceiro, Mickey Spillane, este um produto da Guerra Fria e do macartismo literário, enquanto Chandler é um denunciante, com recursos de subtileza, da corrupção a todos os níveis. Perdeu-se uma mulher, por Raymond Chandler, Livros do Brasil/Porto Editora, 2020, tem uma escrita fenomenal, um enredo intrigante, Marlowe cruza-se com um ex-condenado acabado de sair da prisão que anda à procura da sua companheira, uma bela ruiva, cantora em bares de Hollywood, oito anos atrás. Por encantos de serpente, Marlowe engrena nesta busca onde não vão faltar crimes, organizações mafiosas, roubos, drogas, casinos ilegais e até um consultor psíquico, um bruxo astuto metido numa teia criminosa. Chandler tinha um condão de fazer faiscar, logo os primeiros parágrafos, prisão compulsiva para o leitor não pode arredar pé da narrativa eletrizante, ninguém na literatura de crime e mistério esculpiu retratos, revelou indumentárias como Chandler, assim:

“O dia estava quente, estávamos quase nos fins de março, e fiquei junto à barbearia a olhar para o letreiro intermitente de néon de uma espelunca onde se jantava a jogava, instalada num segundo andar e chamada Florian’s. Havia um homem a olhar para lá, também. Olhava para cima, fitando as janelas cheias de pó, com uma espécie de fixidez estática, como um imigrante palonço a contemplar a Estátua da Liberdade pela primeira vez na sua vida. Era um tipo avantajado, embora não chegasse bem aos dois metros de altura e a envergadura não fosse maior do que a de um camião de cerveja. Os braços pendiam-lhe e tinha um charuto esquecido entre os dedos enormes.

Negros, magros e tranquilos subiam e desciam a rua, dardejando-lhe olhares de lado. Valia a pena olhar para ele. Usava um velho chapéu de feltro, à Borsalino, um casaco de desporto cinzento e ordinário, com bolas de golfe brancas a servir de botões, uma camisa castanha, uma gravata amarela, calças largas de flanela cinzenta às pregas, e sapatos de pele de crocodilo com erupções brancas nas biqueiras. Do bolso do peito cascateava-lhe um lenço de assoar no mesmo amarelo berrante da gravata. Ostentava duas penas coloridas enfiadas na fita do chapéu, mas realmente nem sequer isso era preciso. Mesmo na Central Avenue, que todos sabem não ser o local mais convencional do mundo, dava tanto nas vistas como uma tarântula numa fatia de pudim de claras”. A descrição prossegue, este homem é Moose Malloy, ele vai à procura da sua querida Velma, conversa com Marlowe, às duas por três este detetive privado entra no enredo, ele põe-se à cata da viúva do dono do bar, talvez ela saiba como encontrar Velma. É uma viúva decadente com tiques alcoólicos, finge muito bem que nada sabe sobre Velma, veremos pelo adiante que é a sua fonte de rendimento que chega através de um escroque que ganha a vida com manhas de gigolô. O encontro com este espécimen é outra peça notável de figuração, ora vejam:

“Em comparação com a centáurea azul que tinha na lapela, os olhos pálidos, da mesma cor, pareciam desbotados. O lenço violeta estava suficientemente frouxo para se ver que não usava gravata e que possuía um pescoço grosso, macio e castanho, como o de uma mulher robusta. As feições eram um pouco grosseiras, mas agradáveis, e teria mais uns três centímetros de altura do que eu. O cabelo loiro apresentava três ondas impecáveis que me fizeram recordar os degraus e me levaram a detestá-las. Fora estes pormenores, a aparência geral era a de um tipo que usava um fato de flanela branca com um lenço violeta ao pescoço e uma centáurea azul na lapela”.

Este encontro vai acabar mal, o gigolô pretende os serviços de Marlowe para o acompanhar num resgate de um roubo, uma peça em jade digna de um museu. Chandler estende-se como grande artista na descrição da natureza dos desfiladeiros que percorrem para o encontro, há um crime e o detetive é bem zurzido, uma dama recupera-o, a polícia entra em ação e estranhamente ele é convidado a não voltar a meter o bedelho no assunto, há gente muito importante que não pode ser incomodada. Mas Marlowe não conhece o temor, vai visitar a mulher do multimilionário que teria sido roubada e que queria reaver a raríssima peça de jade. Alarga-se a teia, há cigarros com droga, o consultor psíquico cedo se quer desembaraçar do detetive, a viúva de Florian será assassinada, Marlowe continuará a ser amassado com uns bons murros, é um desfile de gente bem e de gente de mal, crescem as intimidações, a mulher do multimilionário entra em cena, descrição mais decorativa e teatral Chandler não nos podia dar:

“Estava em traje de passeio, de um pálido azul-esverdeado. O cabelo apresentava o dourado dos quadros antigos e fora um pouco despenteado. As suas curvas eram de molde a ninguém conseguir melhorá-las, por pouco que fosse. O vestido era bastante caro, já para não mencionar um colar de diamantes que lhe rodeava o pescoço. As mãos não eram pequenas, mas tinham caráter e nas unhas havia a habitual nota dissonante, quase magenta. Brindou-me com um dos seus sorrisos. Tinha o ar de quem sorria a torto e a direito, mas os olhos eram calmos, como se pensasse lenta e cautelosamente. A boca destilava sensualidade”. Por ordem natural das coisas, o crime adensa-se, o mistério tomou conta do leitor. Marlowe continua a ser esmurrado e pontapeado, ele colabora com um polícia bom, chegamos a outro momento memorável desta obra-prima literária, o encontro de Marlowe com Brunette, o senhor dos casinos flutuantes, viagem em táxi aquático, onde tudo podia acabar mal, o mafioso assegura o detetive de que vai passar a palavra ao ex-condenado. E súbito desvenda-se a meada do crime, por sinal crime e paixão, quem mata foge e volta a matar, manda a moral norte-americana que todo aquele que mata merece punição, nada de sentimentalismo, a justiça à norte-americana é para se cumprir. De leitura obrigatória, tem crime e mistério, mas é acima de tudo um dos melhores livros que este subgénero literário produziu. Para que conste.

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