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  • Beja Santos

Uma investigação ímpar que se transforma numa formidável ebulição literária


Mário Beja Santos: Tudo é apresentado como um trabalho de investigação acerca de um tenebroso espião britânico ao serviço de Moscovo, Kim Philby, ainda hoje um nome arrepiante, pois foi a mais importante toupeira soviética na Grã-Bretanha, um traidor que passou para a URSS os segredos das operações aliadas nos primeiros anos da Guerra Fria. O que acontece é que o leitor vai sendo avassalado por um thriller onde se gera um quadro mutacional – o que foi História pode agora ser digerido como um fabuloso romance de espionagem: Um Espião Entre Amigos, por Ben Macintyre, Publicações Dom Quixote, 2020. O autor esclarece ao que se propõe: “Este livro não é mais uma biografia de Kim Philby. É, antes, uma tentativa de descrever um determinado tipo de amizade que teve um importante papel na História, contada sob a forma de uma narrativa. Não é tanto sobre política, ideologia e responsabilidade, mas sobre a personalidade, caráter e uma relação muito britânica que nunca antes tinha sido explorada”.

De facto, a história destes traidores no chamado Círculo de Cambridge, um grupo de jovens crentes na ideologia comunista, é revisitada por Ben Macintyre numa vertente original: são analisadas a fundo as relações entre Philby e os seus dois amigos mais íntimos no mundo da espionagem, gente do MI6 e da CIA, que acreditavam piamente na lealdade de Philby até à dolorosa revelação da duplicidade de alguém que conduziu à morte um número indeterminado de agentes e nacionalistas em missões denunciadas oportunamente ao KGB. Estamos perante uma narrativa que joga com sentimentos contraditórios, com a duplicidade e uma genial encenação da mentira. É uma viagem à cultura britânica, à formação destes jovens traidores, progressivamente descobertos. Aprecia-se o ambiente familiar, os convívios, o recrutamento pelos Serviços Secretos Britânicos, até mesmo como tais serviços iam evoluindo tendo no horizonte o espetro de um grande conflito com a Alemanha de Hitler. Em termos culturais, era completamente inaceitável que estes produtos sociais da alta linhagem, como Philby, pudessem trair o país. Apreciamos igualmente a ligação ideológica e emocional de Philby ao seu controlador soviético. O KGB durante bastante tempo desconfiou do valor desta toupeira, foi sobretudo a partir da Guerra Fria que lhe deram crédito, quando começaram as tentativas de infiltração nos Balcãs, da Turquia para território soviético, nas operações do Médio Oriente.

O talento de Ben Macintyre está sempre posto à prova, na sua carga de suspense quando fala em desertores e o pânico que é percecionado pelas toupeiras, na revelação da vida sentimental de Philby, os seus amores e desamores e a capacidade demonstrada para esconder da família a sua profissão de espião ao serviço do ideal comunista. A rede de amizades foi muitíssimo útil a Philby, será o caso de James Jesus Angleton e sobretudo Nicholas Elliott, este uma estrela do MI6, que lhe ofereceram facilidades para obter informações, por exemplo a tensão entre a Turquia e a URSS, logo no pós-guerra. Philby partirá para os Estados Unidos, aqui vai ter acesso a milhares de telegramas dos Serviços Secretos Soviéticos. As operações aliadas vão encalhando, umas a seguir às outras, será o caso de tentativa de infiltração na Albânia. Angleton, o norte-americano mais íntimo de Philby, reúnem-se regularmente num restaurante de luxo e Philby escreverá mais tarde: “As nossas conversas abrangiam mundo inteiro. Falavam sobre as várias operações secretas contra a União Soviética, sobre os rebeldes anticomunistas que eram introduzidos atrás da Cortina de Ferro, discutiam os recursos que estavam a ser canalizados para projetos anticomunistas, incluindo o recrutamento de emigrados para subversão atrás da Cortina de Ferro”.

A vinda de outra toupeira britânica para Washington, Guy Burgess, um alcoólico exibicionista e provocador, é uma ameaça negra para Philby, mais tarde terá que fugir para a URSS, a fuga de duas toupeiras levará à convocatória para Philby ir a Londres, começarão os interrogatórios, a brilhante carreira de Philby no MI6 findou, fica desempregado sob a suspeita de traição, aceita empregos espúrios. O KGB não quer ainda que ele seja exfiltrado, não há ainda verdadeiras provas que demonstrem cabalmente a traição. E Kim Philby regressa aos Serviços Secretos Britânicos, é destacado para Beirute, Nicholas Elliot vem ocupar o cargo de novo chefe de estação do MI6. Aqui o seu comportamento é o de um talentoso agente duplo, parece já não haver nuvens negras depois das deserções de Burgess e Maclean. Descobrem-se mais toupeiras, Philby, outrora um paradigma do equilíbrio, passa a beber desmedidamente, tornou-se volátil e imprevisível. É neste quadro que uma antiga amiga de juventude, Flora Solomon, recorda que Kim era um comunista e relata uma conversa havida em 1935 em que Philby lhe dissera com orgulho que estava a fazer um trabalho muito perigoso em prol da paz, tentara recrutá-la como espia comunista. Recomeçam os interrogatórios, Elliott explica ao amigo que a traição já era conhecida. O que se segue são os preparativos do desaparecimento de Philby, engenhosamente bem contados. E três velhos espiões britânicos encontram-se em Moscovo, não se pode dizer exatamente que vivessem numa onda de felicidade. Os últimos anos de Philby foram tranquilos, treinou recrutas soviéticos e devia ser agraciado com a Ordem de Lenine, faleceu em maio de 1998.

Esta admirável obra de investigação que se lê compulsivamente como um thriller de primeiríssima água é posfaciado por John le Carré que conta as conversas havidas com Nicholas Elliott acerca da traição de Philby, são páginas de antologia, têm um epílogo emocionante, o testemunho do próprio John le Carré: “Em 1987, dois anos antes de O Muro de Berlim ser derrubado, eu estava de visita a Moscovo. Numa festa oferecida pelos escritores da União Soviética, um jornalista em tempo parcial com ligações ao KGB chamado Genrick Borovik convidou-me a ir a sua casa para conhecer um velho amigo e admirador do meu trabalho. O nome do amigo, quando perguntei, era Kim Philby. Agora sei por fonte segura que o Philby sabia que estava a morrer e esperava que eu colaborasse com ele noutro volume de memórias.

Recusei-me a encontrar-me com ele. O Elliott ficou satisfeito comigo. Pelo menos, penso que sim. Mas no íntimo, talvez esperasse que eu lhe trouxesse notícias do velho amigo”. É um texto tão impressivo como aquele encontro de dois espiões de meia idade, Elliott e Philby, uma relação de há quase trinta anos, aquele seu encontro em Beirute é marcado pela frustração e agonia, eles tornaram-se inimigos, combatentes em lados opostos num brutal conflito.

Ben Macintyre oferece-nos indiscutivelmente uma história de espionagem sem paralelo, é uma narrativa de leitura obrigatória.

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