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  • Beja Santos

Uma grande angular sobre a guerra colonial, manual de leitura obrigatória


Mário Beja Santos: Guerra Colonial, por Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes, Porto Editora, 2020, é o mais abrangente de todos os documentos até hoje publicados para o grande público sobre o acontecimento mais marcante da nossa História na segunda metade do século XX. Abalançaram-se a um grande desafio estes dois investigadores com créditos firmados neste ramo historiográfico, saem altamente compensados pelo resultado final, deram-nos uma obra irrepreensível, fundamentada do princípio ao fim, ponto curioso, graças a uma primorosa narrativa que nunca cede ao rigor, mas dentro de uma estrutura comunicativa acessível a leigos e igualmente suscetível de interessar todo e qualquer estudioso nesta matéria.

O que torna este manual ou roteiro o livro que deve constar das nossas estantes é o modelo estrutural adotado, não se descuram políticas ou doutrinas, os territórios onde se fizeram as guerras, a composição dos diferentes ramos das Forças Armadas que estiveram envolvidos, quem era quem nos movimentos de libertação, como reagiram as populações que a guerra envolveu, na retaguarda portuguesa o que se pensava da guerra, ao longo da sua duração e crescente penosidade, como se constituíra ou fermentara o ideal imperial português de que Salazar se tornou o arauto irredutível.

Em sequência, dá-se ao leitor os cenários da guerra, as doutrinas sobre a guerra subversiva, vemos dispostos no terreno os diferentes efetivos e vemos atuar a guerrilha e reagir a contra-guerrilha. Estamos num tempo, a nova África do pós-guerra, há instâncias novas, onde funciona um diálogo multilateral que alterou a diplomacia convencional, a ONU. Adriano Moreira dá um excelente depoimento sobre Salazar e o seu Estado beatificável, parece estarmos num drama shakespeariano de um regime personalizado que foi entrando em degenerescência interna.

Abrem-se as cortinas do palco e estamos no início da guerra em Angola, vamos depois conhecer os teatros de operações, os movimentos de libertação da mais vasta das colónias. A seguir vem a Guiné, acompanhamos as razões de Amílcar Cabral e a fundação do PAIGC, o pensamento e ação conducentes a uma guerrilha que teve uma entrada fulgurante e uma estratégia que surpreendeu os Comandos portugueses, acompanhamos o desenrolar da guerra, conhecemos os seus efetivos e releva-se os acontecimentos de 1973, que se revelaram cruciais. Passa-se para a guerra em Moçambique, apresenta-se a FRELIMO e a evolução do teatro de operações, tudo começara no Norte, depois a FRELIMO avançou para o Sul até que a população branca explodiu em Vila Pery e Beira, chegara o terror às fazendas, os colonos criticavam asperamente a incapacidade das forças portuguesas.

Os autores dissecam a orgânica das Forças Armadas, dão-nos um resumo admirável dos dispositivos, do armamento, das forças especiais. De igual modo, são apresentados os movimentos de libertação, os dispositivos efetivos, o armamento. Recorda-se o esforço de conquistar as almas, como a guerra se africanizou. Passa-se para o quotidiano, a vida nos quartéis, a importância do correio, a exaltação de valores como o das cerimónias do 10 de Junho ou a atribuição de condecorações.

Contra-guerrilha significa ter de haver um preceito estratégico basilar, e os autores distinguem três modos de fazer a guerra nas pessoas de Costa Gomes, Spínola e Kaúlza de Arriaga, o leitor mais exigente encontrará nestas apresentações o que distinguia estes três cabos de guerra: o delineamento estratégico, frio e pragmático, de Costa Gomes, que obteve sucesso na desarticulação da guerrilha, sobretudo na Frente Leste de Angola; Spínola começou por conter o ímpeto da guerrilha do PAIGC, procurando atrair populações indecisas, gerando novas formas de diálogo como foi o caso dos Congressos do Povo, jogou seriamente a cartada de pôr grupos do PAIGC nas Forças Armadas Portuguesas, que teve um desfecho trágico, deu impulso a uma operação na Guiné Conacri que redundou num desastre diplomático sem precedentes, tentou negociar um processo de auto-determinação para a Guiné que Marcello Caetano recusou e depois os acontecimentos de maio de 1973, verificando que não lhe davam equipamento que se pudesse confrontar com os novos armamentos e novas táticas de quase guerra convencional montadas pelo PAIGC, pediu exoneração, ato que teve ressonância para o futuro da guerra; e Kaúlza de Arriaga, o mais ideológico dos três generais, para quem só a vitória militar contava, montou uma operação no Planalto dos Macondes convencido que aniquilaria os efetivos e a influência da FRELIMO junto das populações, enganou-se redondamente, estes efetivos começaram a progredir para o Sul e corresponderão ao desafio de fazer a vida negra na construção da barragem de Cahora Bassa.

Este manual ou roteiro não descura as finanças ou o custo da guerra, o rol de mortos, feridos e prisioneiros. Chegamos à última etapa do Império, à formação do MFA e à queda do Estado Novo. Não são esquecidas as feridas de guerra, os deficientes em particular. Usando da maior franqueza, os autores questionam a mitologia saudosista de que a guerra fora perdida por falta de vertebração dos militares, aquela guerra era sustentada e alegam mesmo que os guerrilheiros davam mostras claras de esgotamento, houvera uma “vitória traída”. Agarrando na documentação que hoje se pode compulsar, desmontam, peça por peça, a mitologia de que as Forças Armadas controlavam a situação nos três teatros de operações, ou de que haviam alcançado a vitória militar em parcelas desses três teatros ou de que conseguiriam manter a soberania sobre os territórios ultramarinos desde que tivessem vontade para combater. Mostram como a situação de Angola não era de paz, havia uma séria e assumida ameaça convencional sobre Cabinda e o Norte, que em Moçambique a FRELIMO estava a infiltrar grupos cada vez mais para Sul, chegando à estrada Beira–Lourenço Marques, era uma situação em profunda degradação, a Igreja Católica manifestava uma clara oposição à guerra, nos bastidores Jorge Jardim procurava uma alternativa à continuação da guerra, que ele considerava perdida; e a Guiné-Bissau fora reconhecida como país independente, os Altos Comandos tinham decidido uma manobra de retração, que era a clara admissão de que as forças portuguesas abdicavam da posse de uma boa parte do território da Guiné, iriam concentrar-se no reduto central, a soberania portuguesa seria apenas formal e enquanto pudesse sê-lo, adivinhava-se com o reconhecimento da independência que muitos países iriam apoiar ataques ao reduto português, adivinhavam-se as consequências, teríamos ali uma nova Índia. Enquanto tudo isto se passa, o último trimestre de 1973 e o primeiro de 1974 revelam um regime em conspiração e a tentativa desesperada do governo de Marcello Caetano em encontrar interlocutores junto dos movimentos de libertação, mantendo a fachada que a guerra continuaria sem desfalecimento. Recorda-se ao leitor de que o Governo Português, desde Salazar, recebia um programa de apoio da África do Sul graças a uma aliança política e militar, o Exercício Alcora. E este manual ou roteiro de indiscutível importância, único no panorama editorial português, termina com uma lista de protagonistas tidos como bastante influentes no quadro da guerra colonial.

Insiste-se que é livro indispensável para antigos combatentes e para as novas gerações.

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