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  • Beja Santos

Uma estreia de génio de um nome supremo do policial: Raymond Chandler


Beja Santos: O norte-americano Raymond Chandler estreou-se no romance de crime e mistério em 1939, tinha então 51 anos, perdera emprego na indústria petrolífera, À Beira do Abismo espoletou um conjunto de obras centradas num detetive privado que cedo percorreu o mundo, Philip Marlowe, logo apresentado no início do seu romance de estreia: “De fato azul-esmalte, camisa, gravata e lenço de bolso azul-escuros, sapatos pretos e peúgas de lã da mesma cor, com pinhas azul-escuras, eu era, da cabeça aos pés, o que deve ser um detetive particular bem vestido. Apresentava-me aperaltado, limpo, barbeado de fresco e sóbrio, e não me importava que o soubessem”.

Chandler trazia para a literatura as dimensões do romance negro, não descurando a questão central do crime a desvendar, mas matizando a encenação com casos de corrupção, literatura pornográfica, perversidades, com uma ação detectivesca que não aparecia associada aos tipos cerebrais como Sherlock Holmes, Ellery Queen, Philo Vance ou Hercule Poirot. Chandler ainda não sabia, mas abria a porta a uma literatura de crime e mistério aparentada com a capa e espada, os bares noturnos e toda a sua fauna da noite, os gangues e os assaltos – e, claro está, os detetives situados numa escala humana, que serão afeiçoados pelo cinema e pela televisão.

Este romance-estreia mete gente muito abonada, um bizarro meio familiar, um sórdido vendedor de literatura pornográfica, chantagista, Marlowe irá trabalhar para esse milionário para pôr termo à extorsão do chantagista e assim se entra no carrossel onde não falta uma ninfomaníaca, um xerife compreensivo, tudo com apresentações de personagens e de atmosferas que irão fazer escola, em todo este subgénero literário. Veja-se esta apresentação: “Vestia um fato de tweed acastanhado, às pintas, camisa e gravata masculinas e calçava sapatos práticos. As meias eram tão finas como as da véspera, mas não mostrava tanto as pernas. Cobria-lhe os cabelos negros, brilhantes, um chapéu à Robin dos Bosques, que devia ter custado uns bons cinquenta dólares e que parecia ter sido feito com um bocado de mata-borrão”. O chantagista é assassinado, vão seguir-se mais mortes, Chandler insiste no desvelo descritivo, a indumentária chega a ganhar uma tonalidade barroca: “Era todo ele uma sinfonia de cinzento, com exceção dos sapatos pretos, muito lustrosos e de dois diamantes escarlates que trazia na gravata de seda cinzenta. A camisa era igualmente cinzenta, e cinzento o jaquetão bem cortado, de flanela macia. Ao ver Carmen, tirou o chapéu cinzento e mostrou o cabelo grisalho e tão fino como se tivesse sido peneirado através de uma gaze. Possuía sobrancelhas grisalhas, bastas, queixo comprido, nariz aquilino e olhos cinzentos, pensativos a que a prega de carne que lhe caía ao canto das pálpebras dava um ar oblíquo”.

O general e milionário Sterwood, as suas duas filhas problemáticas, um genro que desapareceu, vários escroques à solta, um Departamento de Homicídios que não consegue atinar com a natureza daqueles crimes, pretensos suicídios, um capitão do Departamento de Pessoas Desaparecidas, um crápula que gere um negócio de casa de jogo, este detetive solitário que nunca levanta a voz, que é frontal, vai juntando os fios da meada, prepara um surpreendente e arrebatador final, mas acima de tudo o que este romance encerra é uma fulgurante modernidade, e daí o seu classicismo. É verdade que já ninguém escreve como Chandler, sempre empolgado pelo cromatismo e pouco dado a estados de alma, o que se impõe na sua escrita tem força teatral: “Em Santa Mónica a água chegava aos passeios e cobria-os com um fino lençol. Um polícia de trânsito, de capa de oleado preto e botas de borracha da mesma cor, saiu do abrigo inútil de um toldo ensopado. As minhas solas de borracha escorregaram no pavimento molhado, quando entrei no vestíbulo estreito do Fulwider Building. Ao fundo, para lá do elevador que em tempos devia ter sido dourado, brilhava uma única luz”. Entra e temos outra descrição preciosa, daquelas que ainda hoje agarra qualquer leitor: “Um velho dormitava no elevador, sentado num banco desengonçado e com uma almofada rebentada debaixo do assento. Tinha a boca aberta, as têmporas raiadas de veias brilhavam-lhe à luz fraca e usava um casaco azul, de uniforme, que lhe dançava no corpo, calças cinzentas de bainhas esfiampadas, sob as quais se viam as meias brancas, de algodão, e sapatos de calfe preto, um deles roto no joanete. Dormitava miseravelmente, à espera de um cliente”.

O final, o desenlace, surge como que imprevistamente, parece que a trama perdeu nexo ou não tem saída, e como manda a obra-prima destinada à intemporalidade, tudo acaba onde começara, em casa do general, quem perpetrara um crime procura comprar o silêncio a Marlowe, este revela-se ético, e dá-nos conta disso:

“Que importa onde descansamos depois de morrermos? Que diferença poderá haver entre um reservatório imundo e uma torre de mármore, no cimo de uma montanha alta? Estamos mortos, dormimos o grande sono e essas preocupações não contam. Dormimos o sono eterno sem nos importarmos com a perversidade que nos matou nem onde caímos”. Marlowe considera que faz parte dessa perversidade, que havia que poupar o moribundo cujo coração não era mais que um murmúrio breve e incerto, e que dentro de pouco tempo dormiria o sono eterno.

A seguir À Beira do Abismo seguir-se-ão outras obras prodigiosas, como A Dama do Lago e O Imenso Adeus, já publicados nesta Coleção Vampiro nova série.

Leitura imperdível, obrigatória para todo e qualquer aficionado da literatura de crime e mistério.

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