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  • Beja Santos

Uma admirável narrativa, uma joia literária que nos chega de escritor guineense


Mário Beja Santos: Ussu de Bissau, por Amadú Dafé, Manufactura, 2019, é uma história de uma criança feita para sensibilizar os mais crescidos. A criança viverá uma descida aos infernos, a mãe fica convencida que ele irá frequentar uma escola corânica no Senegal, viverá na mais extrema miséria, experimentará toda a escala de vergastadas e pontapés, será forçado a mendigar, introduzido num antro de pedófilos, estará na iminência de ser raptado. O que Amadú Dafé nos grita com toda a força do coração é que a história de Ussu se confunde quando milhares de crianças da costa ocidental africana percorrerão esta via-sacra que os pode conduzir à morte ou ao aniquilamento moral, sob o beneplácito da exploração da credulidade religiosa.

O apelo aparece enformado por uma belíssima literatura, uma trama que se organiza em capítulos sequenciais, haverá em toda a sua extensão um processo narrativo de sobrevivência em que o melodramatismo e a consciência de um jovem que aposta, depois de todos estes episódios degradantes, em ganhar a pulso a vida como homem livre. É literatura luso-guineense de puríssima fonte, é um português de dois continentes onde se fala da vegetação africana, dos curandeiros, das danças, do sobrenatural, da vida aldeã, das maldições e das desgraças, tudo numa redação pujante, elástica, é o adulto quem escreve, é a criança que perora, que se manifesta para que o leitor a oiça do princípio ao fim, logo o texto de rompante onde se entrecruzam visões sombrias num território de rochedos:

“Se ainda vivo e respiro, não será porque a morte não tem as suas razões para me abraçar. Não sei qual é o plano da morte, mas desconfio que a minha vida seja igual à de um gato. Morrerei quando a morte me conseguir abraçar por sete vezes, morrerei quantas vezes morre um gato.

Se ainda vivo e respiro, será porque sou mesmo como um gato e os gatos, do que se sabe, pelo menos num mundo como este, onde não se consegue ser gente, não são bem tratados.

Há gente, poderosa, que se transforma em gato para fazer mal aos outros. Gente feiticeira, maléfica, que vira bicho para caçar almas ou espalhar maleficência às pessoas desprovidas deste tipo de poderes e fazeres (…) A minha vida aqui deixou de ser de gente, passou a ser de gato. Pareço uma maldição ambulante, uma sombra, uma manifestação de feitiçaria, uma emboscada. Deveriam, muito embora, saber que já provei várias sensações de morte e desnorte, que morrer, para mim, deixou, há muito, de ser um terror”.

E a história prossegue, a mãe de Ussu, após obter pareceres familiares favoráveis, manda a criança para uma escola corânica que não passa de uma central de escravatura onde não falta pancada e condições degradantes que vão desde o pedinchar para angariar meios ao mestre-escola, e este, inescrupuloso, põe as crianças a render num antro de pedófilos. Não faltam as vergastadas e o estômago vazio. Mas Amadú Dafé sabe-nos conduzir agilmente pelo mundo da infância, e então abre mão de um veio poético feito para comover quem segue a vida deste andarilho na sua penitência de maus-tratos:

“Aqui, a minha cama é o meu chão, o meu manto é a areia, a minha casa é a terra. A lua continuava a guiar-me, a correr atrás de mim e a andar ao meu lado em todas as direções e condições, iluminando-me.

Comia ao vento enquanto tinha a companhia da lua. Não podia ser mais grato À natureza e a Deus. Às tantas, não queria largar a vida de talibé (aluno). Era uma vida engraçada que aprendi a ter. Ganhei-a à custa das minhas costelas, das minhas lágrimas, sobretudo da minha alma, dura e persistente. Se fosse um gato diria que tinha também sete vidas. Talvez fosse por isso que tive um acaso nascimento”.

Pedincha, leva chibatada, é bem acolhido pelo tio Lamine, um lojista, e Ussu faz amizade com o filho, Adulai, jogam à bola. O treinador informa-o que lhe arranjou uma madrinha, viremos a saber que é uma cafajeste, faz parte de uma quadrilha de raptores de crianças. O escritor guineense guia-nos por estes pesadelos, por vezes é brutal a descrever a miséria, a física e a moral, extremamente contido em quadros muito delicados, como é o caso de Ussu em meio pedófilo, de onde ele foge para cair nas garras de uma raptora, que acaba presa, e então se descobre que ele fora o isco utilizado para apanhar em cheio a gente desta quadrilha.

Chegou a hora de Ussu regressar à sua tabanca na Guiné, despede-se do leitor com um poderoso monólogo que vitoria a liberdade ou a assunção de viver livre:

“Formei-me nas ruas, como um rato, e cresci sobrevivendo como um gato. A minha maturidade emancipou-se e a minha formação foi de um gato caçador (…) Tinha ganhado uma vida cheia de experiência e vivência. Tinha-me emancipado e formado em vida. Que mais poderia levar de volta para os meus? Poderia encontrar a morança cheia, mas infelizmente a minha mãe não estava.

‘A tua mãe não se aguentou, Ussu. Ela não se aguentou’, disse-me a minha tia, à porta, choramingada.

Os que encontrei apareceram à porta com abraços, de muitos braços abertos, talvez cheios de saudade. Abraçaram-me, com força que lhes parecia de arrependidos, mas era do coração. Deveria isso bastar para aceitar a ausência da minha mãe? Até porque sinto que ela se tornara numa estrela, a mais brilhante.

Será para sempre o meu sol. Será a minha lua, para me seguir em todas as direções e condições? Irá saber como iluminar o meu caminho.

Pelo menos houve alguém em casa à minha chegada que me serviu água e arroz. Que me consolou e transmitiu as suas últimas palavras”.

Saúda-se a emergência de um grande escritor, um guineense com o coração em várias paragens, o que escreve está marcado pela fidelidade às origens e aos problemas da sua gente, e o seu português é de lei, ágil, contundente, cheio de africanidade. E denunciador desse crime horrendo do tráfico de crianças que aguarda firme reparação.

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