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  • Beja Santos

Uma admirável narrativa sobre os Bragança, a nossa família real durante 270 anos


Mário Beja Santos: Malyn Newitt, professor do King’s College é um investigador que possui no currículo mais de 20 livros sobre Portugal e a história colonial portuguesa. Os Bragança, Texto Editores, 2020, foi publicado no ano anterior em Londres, é seguramente um dos livros mais recentes deste conceituado historiador. Num apanhado geral, ele dirá que os membros desta família não primaram pela longevidade, os homens gostavam da caça e alguns da música, eram pouco dados a escrever diários (embora a epistolografia fosse obrigatória) e adoravam cerimoniais. Ele escreverá mesmo: “Tiveram a sua quota parte de fracassados, analfabetos, fisicamente débeis e mentalmente instáveis. Tiveram reis que sofreram de pretensões grandiosas absurdas, que foram vingativos, que negligenciaram os assuntos públicos, mulherengos e epiléticos. Mantiveram cortes extravagantes, mas apoiaram tentativas para reformar e fortalecer o seu país, a maioria das vezes com sucesso limitado. Sofreram mais do que o normal de problemas de saúde, mortalidade infantil, senilidade e mortes prematuras. Em geral, procuraram manter-se em contato com os sentimentos populares dominantes, cientes de que quando a dinastia não o fizesse, deixaria inevitavelmente de reinar. Na história acidentada desta monarquia, é raro encontrar um indivíduo notável, que tenha sido admirado por todos os setores da sociedade, que tenha reinado de uma forma eficaz e com todas as qualidades fundamentais da realeza – no entanto, foi esse o caso de D. Pedro II, imperador do Brasil, e um dos últimos membros da dinastia a ocupar um trono”.

O autor explora habilmente o acesso aos arquivos britânicos, a história de uma família real no contexto mais largo da história do país que carece de olhares estrangeiros e Malyn Newitt dá vivacidade aos seus relatos interpolando comentários, extratos de cartas ou até mesmo documentos pouco acessíveis ao investigador português. Naturalmente que precede o seu vasto trabalho dando ao leitor um relance dos primórdios da monarquia portuguesa, é indispensável perceber a fundamentação do que foi a ideia de monarquia em Portugal ao longo dos séculos, para se perceber como, em teoria, os reis da dinastia de Bragança atuaram como monarcas absolutos. O autor recorda que D. João IV devia o seu trono a um golpe de Estado realizado por uma fação da nobreza, foi forçado a reformular a linhagem aristocrática; também uma fação nobre interveio em 1668 para depor D. Afonso VI e substituí-lo pelo seu irmão D. Pedro. As Cortes perderam a influência que tiveram em dinastias anteriores. O poder do rei dependia do equilíbrio dos privilégios da nobreza e da Igreja. E ninguém ignora que a Corte espampanante de D. João V foi diretamente influenciada pelas riquezas do Brasil que entraram no tesouro áulico. Há um outro aspeto que o autor nos recorda sobre os Bragança, os receios pela sucessão, viveram quase sempre atormentados, na linha de risco, com a morte dos primogénitos, caso de D. Teodósio ou D. João IV ou de D. José no caso de D. Maria I, pelo que ficou relatado eram dois infantes muito capazes e bem preparados. O último rei de Portugal, D. Manuel II, morreu sem filhos e daí a crise sucessória em que os adversários da linha miguelista sentiram que deviam apoiar a descendência da infanta D. Ana de Jesus, Marquesa de Loulé, entusiasmo de duvidosa legitimidade. Poucos Bragança viveram até à velhice, D. Pedro V morreu aos 24 anos. Se no passado a Corte se deslocava entre uma série de residências reais, os Bragança não quiseram prescindir de ter palácio em Lisboa e ter a faculdade de mandar construir edifícios monumentais, caso de Mafra. D. João IV veio residir no Paço da Ribeira, durante os meses de verão ia-se para Vila Viçosa. Construíram-se depois outras residências, caso da Quinta Real em Caxias, o Palácio de Queluz, a Reserva Real de Caça em Salvaterra de Magos, o Alfeite, Mafra, Vendas Novas, ampliou-se a residência de Belém. Quando um incêndio destruiu a Real Barraca em 1794, iniciou-se a construção de um novo e imponente palácio na Ajuda, onde já existia um jardim botânico. Foi nesta geografia essencialmente que se movimentaram os Bragança, não descurando o Palácio de Sintra e depois o Palácio da Pena, que ganhou grande importância a partir de D. Maria II. O autor depois de desvelar o que era a etiqueta e os costumes da Corte, entra verdadeiramente em todo o histórico da dinastia, releva a importância da aliança com a Grã-Bretanha, a regência de D. Luísa de Gusmão, período em que fundamentalmente Portugal saiu vitorioso das guerras com Espanha, destaca a época de ouro de D. João V, as reformas do reinado de D. José postas em prática pelo Marquês de Pombal, a regeneração tentada no tempo de D. Maria I, uma rainha paradoxalmente avessa a inovações e o drama do seu colapso mental, mostra-nos um rei D. João VI mais firme e hábil que a historiografia portuguesa trata, e assim entramos num período de grandes perdas e declínio marcado pelas invasões francesas, pela guerra civil, pelo cabralismo, até se chegar a um período de décadas pontuadas pela visão de Fontes Pereira de Melo até que entrou num rotativismo e numa crise financeira permanente que ajudou à emergência da ideologia republicana; do regicídio ao golpe de Estado republicano foi o reinado de D. Manuel que deixou pouca história.

O autor dedica um capítulo de grande vivacidade aos imperadores brasileiros, todos eles Bragança, e mostra como o legado do primeiro imperador do Brasil foi sabiamente herdado por D. Pedro II, ainda hoje tão lembrado na história e cultura brasileira. No termo desta viagem os Bragança em Portugal, Malyn Newitt lembra que a família Bragança mantém a sua rede de laços familiares com outra realeza. “Estas famílias reais formaram uma espécie de clube exclusivo que realiza reuniões, celebra casamentos entre os seus círculos e dá-se ao luxo de usar título e outorgar honrarias de ordens de cavalaria fantasma. Estas pretensões são apoiadas por uma multidão de bajuladores, muitas vezes mais monárquicas que a própria realeza, e talvez encorajadas por sonhos de que um dia a roda da fortunada política os coloque novamente nos seus tronos, o que de facto aconteceu na família real espanhola, que perdeu o trono em 1931 e o recuperou em 1975, após a morte do general Franco”.

Os Bragança merecem ser lidos, é uma obra de reapreciação de uma família, porventura aqueles que estão convictos da causa monárquica em Portugal não ficarão satisfeitos com esta galeria de retratos da família e até mesmo da seleção extensa de documentos históricos e as referências provenientes de outros arquivos, nem sempre agradáveis. No entanto, monarcas houve que se distinguiram nas artes, caso do rei D. Carlos, um diplomata e artista plástico talentoso que a roda da fortuna maltratou.

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