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  • Beja Santos

Um clássico entre os clássicos: “A fera tem de morrer”, por Nicholas Blake

Beja Santos: A década de 1930 catapultou o romance de crime e mistério britânico na vanguarda literária mundial. Entre os grandes nomes está Nicholas Blake que criou o detetive Nigel Strangeways, será uma presença constante em quase todos os vinte romances de mistério deste senhor que se chamava Cecil Day-Lewis, mas que literariamente passou à História como Nicholas Blake.

Publicado originalmente em 1938, “A fera tem de morrer” acaba de ser publicado pela Porto Editora, na Coleção Vampiro. É um romance incomum, sem precedentes. É um romancista do crime e mistério que escreve um diário a anunciar que vai matar um homem, alguém que conduzia um carro dentro da aldeia a uma velocidade disparatada e lhe matou o filho. “Uma tarde, há seis meses, ia ele a atravessar a estrada em frente a nossa casa. Tinha ido à aldeia comprar alguns rebuçados. Para ele, podia ter sido apenas o brilho paralisador dos faróis a dobrarem a esquina, um pesadelo momentâneo e, depois, o choque que tornou tudo escuro para sempre. O seu corpo foi projetado para uma fossa. A morte foi imediata, minutos antes de o encontrar. O pacote dos rebuçados espalhara-se na estrada. Lembro-me de que comecei a apanhá-los até que encontrei o seu sangue num deles”. É o romance dentro do romance, uma situação de desespero, de investigação de quem poderia ter cometido, por total imprudência, aquela morte, contata-se a polícia, analisam-se todos os indícios, a perspicácia parece não encontrar saída para avançar. Ele vai juntando provas, há a evidência de que quem matou possuía um carro de corrida com faróis protegidos. O acaso está do lado deste romancista desesperado que reclama vingança, num passeio alguém lhe esboça uma pista, vira um condutor a lavar um carro, exatamente horas depois daquele homicídio involuntário. A meada deslinda-se, há uma mulher, o romancista Felix Lane entra na vida dessa mulher, que o conduz ao homicida. O diário regista tudo, a abordagem, a aproximação, com o pretexto de que está a escrever um romance, este homem que reclama vingança vai viver perto do homicida, conhece-lhe a família, dará mesmo aulas a um jovem adolescente, filho do homicida. Vai congeminando o modo de o liquidar, um passeio de barco. E termina o diário, no dia em que supõe que irá fazer justiça pelas suas próprias mãos: “A minha mãe ao segurar agora, a caneta, não treme. Há nuvens brancas a formarem-se no céu; as folhas balançam-se alegremente ao sol. Tudo me é propício”. Aqui acaba o romance dentro do romance. Um desfecho inopinado aguarda o leitor. Durante o passeio no rio, quem matou revela ao escritor que leu o diário, este é comprometedor para ambas as partes, desabafam, trocam-se ameaças: o homicida se entregar o diário à polícia revelará a esta a morte da criança. E separam-se, o homicida regressa a casa e o escritor Felix Lane à estalagem onde tem permanecido. Entra em cena Nigel Strangeways chamado por Felix Lane pois entretanto o homicida morreu envenenado na sua própria casa. Detetive e inspetor da polícia trocam argumentação, têm convicções diferentes de quem matou, não resta dúvidas que houve crime, ninguém se suicida com uma dose de estricnina na presença da família, além de que não aparece nenhum frasco de veneno. A investigação faz-se dentro daquela casa cheia de figuras bizarras, a mulher submissa do homicida, a mãe tirânica do homicida, uma cunhada do homicida que vive num outro mundo, um adolescente que era permanentemente achincalhado pelo pai.

A máquina literária oleada por Nicholas Blake não tem arestas, está montada num quadro confessional que irá circular por vários mãos, que é prova mas que também não é de que houve intuito de matar, há de comprovar-se que o escritor esteve sempre distante de poder usar um frasco de estricnina, nas circunstâncias do crime. É aqui que a história se emaranha, quem procurou matar e não pôde sente que deve assumir a expiação pelo ato desesperado de quem pôs estricnina num copo. O detetive Nigel Strangeways conversa longamente com Felix Lane, estavam afastadas as hipóteses de ele ter cometido o crime, acresce que quem matou enviou a confissão ao inspetor da polícia, explicando os motivos do seu ato. Mas a roda da justiça desandou, alguém preferiu morrer para salvar o praticante do crime. O detetive Nigel Strangeways termina assim o livro com uma nota final:

“Na primeira das suas Quatro Canções Sérias, Brahms parafraseia o Eclesiastes 3, 19, desta forma: ‘A Fera tem de morrer e o Homem tem de morrer; ambos têm de morrer’.”

Numa época em que a literatura de crime e mistério já estava consagrada, com mestres norte-americanos, britânicos e franceses, esta obra distingue-se pela arquitetura, não propriamente por qualquer enredo magistral ou por originais situações intrigantes. Ganhou os galões do classicismo pela sua organização surpreendente: o contar a história sob a forma de um diário, a condução de uma investigação bem-sucedida até à identificação do homicida, quem prometeu matar antevê um cenário; entra-se no ambiente de uma família cheia de problemas, o promitente homicida ganha afeto a uma mulher, sente ternura por um adolescente mal tratado, há um espantoso confronto entre quem matou e quem quer matar, tudo se altera com um crime, aprofunda-se uma investigação e chega-se a um desfecho inesperado.

“A fera tem de morrer”, de Nicholas Blake, é de leitura obrigatória para todos os aficionados da literatura de crime e mistério, é obrigatória nas estantes de quem gosta da boa literatura, pois acima de tudo o livro de Nicholas Blake está primorosamente escrito.


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