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  • Beja Santos

Testamento de VGM: Porventura um dos mais belos poemas na nossa língua


Beja Santos: Vasco da Graça Moura (1942-2014) foi um intelectual marcante, polifacetado, pois desdobrou-se entre a poesia, a ficção, a tradução e o ensaio, exorbitou para a política e o seu comentário, distinguiu-se igualmente como antologiador. Perto de fazer 60 anos, deu-lhe o estro poético para uma empreitada onde revelou um talento ímpar: concebeu um testamento, apropriou-se de versos de François Villon, estes escritos quando ele tinha trinta anos, pôs-se ao espelho, aproveitou para fazer a tradução em francês, e naquele lirismo que nos reporta aos arcadianos, aos parnasianos, com reminiscências de escárnio e pitadas de maldizer, às vezes de mordacidade à Bocage, ruminou o seu currículo, igualmente vasto, versátil, tantas vezes externo a algumas outras de uma inconveniência e pesporrência à José Agostinho de Macedo. Fala dos seus amores e atira-se ao legado poético, questionando as musas:

“as que cantei porque as amava,

as que surgiam nas confusas

curvas do tempo que passava,

e passa ainda em cinza e lava

a derivar melancolias”.

E dirige-se aos filhos:

“deixo a meus filhos versos cultos

e também prosas às centenas

(os meus dois filhos são adultos

e as minhas filhas são pequenas)

e muito amor: não deixo apenas,

tudo somado, alguns direitos,

e fui bom pai, nunca fiz cenas

e fi-los sãos e escorreitos.”

Segue-se uma saudação à restante família, não esquece as artes plásticas, o percurso da escrita, mestres como Óscar Lopes e David Mourão-Ferreira (“Deram-me as regras do jardim”), dispensa-se das teorias, reserva-as para Eduardo Prato Coelho e Eduardo Lourenço, acena aos amigos, é cáustico, veladamente bem-humorado com todos aqueles que com ele se indispuseram, mormente na política, onde ele se prontificou a múltiplas pitadas de veneno:

“aos inimigos (pura perda

de tempo ouvi-los a rugir-me)

a esses deixo toda a merda

com que quiseram atingir-me

e ao deixá-la digo a rir-me

‘comei-a toda agora a cru,

que a digestão vos seja firme

e ao fim lambei o próprio cu’.”

Referencia as editoras e concomitantemente alerta o seu potencial público: “quem me chamava cerebral/ faça o favor de me ler bem”.

Chegou a hora de recordar que se envolveu na escrita e na tradução, talvez seja aqui o que há de melhor nesta finura testamental:

“no que escrevi me traduzi

e traduzi outros também

e traduzindo me escrevi

e a escrever-me fui eu quem

das várias coisas que senti

fez sofrimento de ninguém.

depois risquei, depois reli

e publiquei: assim porém

havia sempre mais alguém

para o chamar então a si,

também vivendo o que menti,

mas como seu, mas como sem

ter sido meu o que escrevi

fosse por mal, fosse por bem.”

Confessa-se descrente quanto ao Divino, mas à cautela dá-nos a saber que recebeu todos os sacramentos e que só lhe falta a extrema-unção. Não enjeita as boas, as más e as neutras ações e abraça a cidade do Porto, ao de leve é arrasador:

“ao porto, onde nasci,

que já venceu vários assédios,

para poder voltar a si

condignamente, alguns remédios

e a maldição de autarcas nédios,

gente com alma de algeroz,

que fazem prédios, prédios, prédios,

desfigurando rio e foz”.

Sabe-se num país sempre a dormir, o mesmo já disseram alguns dos seus pares como Eça de Queirós e José Cardoso Pires, é muito frontal com as suas ideias políticas, agradece a mestre François Villon esta ideia de um grande endereço com passado, presente e folguedo para o quarto escuro, onde outros fariam um soneto de hora final.

Troça de imenso talento neste tesouro da lírica portuguesa. De leitura obrigatória.

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