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  • Beja Santos

Quando os dez mandamentos são pretexto para a premeditação de crimes geniais


Beja Santos: Quando se reúnem os nomes maiores da crítica da literatura de crime e mistério e se pronunciam sobre os grandes nomes do género, Ellery Queen é sempre o nome que ganha, nem que seja por maioria relativa. Ellery Queen é figura de um detetive criada por dois primos, Ellery é escritor de romances policiais, diplomada em Harvard e não ignora a sua espantosa capacidade para desvendar crimes da mais elevada complexidade. “Dez dias de mistério”, por Ellery Queen, Livros do Brasil/Porto Editora, 2019, é indubitavelmente uma das obras mais engenhosas, mais enredadas que os primos escreveram. Faz parte do chamado ciclo de Wrightsville, uma cidade imaginada pelos autores, deu origem a um conjunto de livros de qualidade excecional. Este romance data de 1948, está marcado por uma questão científica preponderante na época, o mar ignoto do subconsciente, alguém parece andar profundamente perturbado por erupções de amnésia, talvez carenciado do divã de um psicanalista, esse alguém é Howard van Horn, filho do milionário Diedrich van Horn. No auge do seu aturdimento pela amnésia, pede ajuda a Ellery Queen, regressam juntos a Wrightsville, aqui se desvela um drama clássico já exposto pelos gregos e pelos franceses, a paixão do enteado pela madrasta, tudo nas barbas de um marido e pai cativante e solícito. Um agregado familiar um tanto insólito, a mulher de Diedrich foi por ele preparada, viera de meios humildes, ele fez de Pigmalião, o educador de uma distinta senhora. Há um tio macambúzio e abrutado e uma velha senhora, a mãe de Diedrich, que vive arredada do mundo, segundo as aparências. Ellery Queen veio até Wrightsville com o pretexto de precisar de serenidade para escrever um novo romance, vinha cumprir a promessa de vigiar Howard, procurar entender em que contexto irrompiam aqueles surtos amnésicos.

A conta-gotas, eleva-se a tensão, o milionário predispõe-se a criar um museu de belas-artes para acolher os trabalhos escultóricos do filho, vem depois a confissão daquele amor entre madrasta e enteado, descobre-se que Howard é filho adotivo de Diedrich, depois começa a chantagem com as cartas de amor que Howard mandara à madrasta, pede-se dinheiro, há nova chantagem, inventam-se explicações para o desaparecimento de dinheiro e joias. Diedrich informa o filho que depois de laboriosas investigações se descobrira a identidade dos seus verdadeiros pais e onde estavam sepultados. Ellery vê o vulto de Howard que conduz um carro em alta velocidade e vai até ao cemitério onde estão sepultados os pais, na calada da noite, atónito, vê o vulto do amigo cinzelo e maço a arremeter grandes golpes, profanando os túmulos.

A atmosfera familiar avença-se, a chantagem não para. Ellery, que fora penhorar uma joia para arranjar dinheiro para o chantagista, a pedido do clandestino par amoroso, é identificado pelo penhorista, o detetive não suporta mais aquela atmosfera com tanta eletricidade no ar, quando já vai a caminho, ocorre-lhe que Howard vai fazer das suas, telefone a Diedrich, e ambos vão deparar-se com duas mortes horríveis, como numa tragédia grega, como no teatro de Corneille.

E assim chegamos ao décimo dia, é o momento culminante da obra, Ellery Queen descobriu que cometera um erro tremendo na avaliação de todos os episódios daquele drama e regressa a Wrightsville para um dos mais espantosos confrontos da literatura de crime e mistério, o leitor é atirado de um lado para o outro na descodificação de anagramas, numa premeditação monstruosa do uso do Decálogo bíblico, uma operação de raide, onde havia mentiras comprovadas e tudo culmina com a expiação do crime. É melhor não adicionar mais ingredientes, o leitor tem à sua mercê um livro sem rival, um romance-problema altamente enredado, em circunstância alguma terá capacidade de lhe passar pela cabeça de imaginar o desfecho que leva àquele confronto final, sem memória, mesmo no que há de mais representativo em toda a história da literatura de crime e mistério.

Chega-se ao final da leitura em estado de exaustão com tanta malevolência e tanto argúcia de um detetive amador. “Dez dias de mistério” é não só de literatura obrigatória como obra para ficar na estante, há sempre vontade em regressar a uma investigação e a uma revelação de crimes, é tudo inacreditável e, afinal, Ellery Queen até tem razão, merece ser repetidamente relido, tal é a grandeza do seu engenho argumentativo.

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