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  • Beja Santos

Qualquer dia metade dos portugueses terão mais de 60 anos


Mário Beja Santos: A questão do envelhecimento tornou-se tópico dominante das políticas multidisciplinares, envelhecer repercute-se na Saúde e na Segurança Social, na cultura e nos tempos livres, nas medidas de política económica e financeira, é um nunca mais acabar de problemáticas envolvidas, tendo sempre por alvo os benefícios que uma visão integrada do envelhecimento possam oferecer em termos de desenvolvimento humano. Inevitavelmente, tudo recai no mercado, porque estamos a falar de tempos livres, cuidados na alimentação, culto da forma, cuidados de Saúde, ser menos dependente na arte de envelhecer, ser doente crónico dotado de literacia e autonomia, poder beneficiar do apoio de um cuidador informal, saber fazer um bom uso dos medicamentos e dos serviços de saúde, dispor de uma casa segura onde haja objetos inteligentes adaptados às limitações dos seniores; e enfim, a sociedade no seu todo só tem vantagens em que este envelhecimento seja bem-sucedido mediante uma solidariedade entre gerações.

Estas as expetativas, o quadro ideal em que nos devíamos mover. A realidade põe e dispõe de situações onde se revelam constrangimentos, marginalização, violência doméstica, abandono. A Fundação Francisco Manuel dos Santos na coleção Retratos da Fundação, publicou este ano o trabalho da jornalista Ana Catarina André, Os Pombos da Senhora Alice, Envelhecer em Portugal, uma coletânea de olhares sobre a vivência dos nossos seniores, na cidade e em meio rural, o que significa estar dependente, o que significa ocupar-se, dispor ou indispor da solidariedade. Como escreve a autora, “Neste livro relatam-se histórias de quem, ainda autónomo, é vítima da pressão imobiliária, da falta de afeto e da pobreza, ou de quem, por doença, vive num lar ou já não sai de casa. Retratam-se casos de solidão e de discriminação, dificuldades e carências dos idosos em Portugal”. E os relatos, em girândola, põem no palco quem alimenta pombos para estar entretida, quem decidiu ir para um lar para não dar trabalho aos filhos, quem decidiu voltar à aldeia, quem se agarra à vida e não descura a comunicação, enleando-se nas redes sociais, enviando mensagens, ajudando os outros. Enfim, um cadinho do nosso caleidoscópio sénior.

Há uma efetiva discriminação de quem é sénior, estereótipos que servem para caraterizar, seja de forma negativa ou depreciativa, a incapacidade e a doença, há preconceitos, piedade e paternalismo, atitudes de ajuda excessiva e de sobre-proteção. Os lares, em muitos casos, parecem espaços de estacionamento ou de reclusão em que os horários da higiene e das refeições se organizam em função dos horários dos trabalhadores e não dos idosos. A violência, tanto física como psicológica, afeta um número impressionante de seniores. E há as pessoas sozinhas e isoladas, lembradas por certos programas, que vão desde os telefonemas da Junta de Freguesia até à visita da GNR. Parece que não nos preparámos adequadamente para sermos um país com uma vasta população sénior e as consequências projetam-se em múltiplos domínios, a começar pelo orçamento de Saúde e da Segurança Social. Ana Catarina André percorre lugares, regista encontros e dá pistas valiosas para procurarmos soluções.

Por exemplo, a experiência de envelhecer em Lisboa pode ser sinónimo de solidão, isolamento e ansiedade. É o caso de Alice, faz questão de alimentar mais de meia centena de pombos, é uma forma de espairecer a sua solidão. Octogenária, mora sozinha, tem bem à vista os documentos da campa da família, para que a Santa Casa não se esqueça de que quer ser enterrada com eles. “Quando precisa de ajuda para interpretar uma carta, para tratar do Cartão de Cidadão ou para ir ao médico, recorre a um lojista do bairro, de quem se tornou amiga”. A Santa Casa da Misericórdia propôs-lhe que frequentasse um Centro de Dia, ela recusou, prefere estar sozinha a estar o dia inteiro com velhas. Irene sofre da pressão imobiliária, o senhorio quer fazer obras, há infiltrações na cozinha do vizinho, propôs-lhe que saísse de casa durante uns tempos para arranjar tudo. Ela tem medo do despejo. Vai à missa matinal, faz as suas compras, almoça e janta quase sempre sozinha. Completou 80 anos e os desequilíbrios tornaram-se frequentes, chega a cair três vezes num só mês. Mas insiste em continuar a levar a mesma vida de sempre. Vítor dispõe de uma casa que se transformou num manual de instruções. Nas paredes, nos móveis, nas mesas e nos espelhos há apontamentos que vão da higiene à arrumação do frigorífico, o que tem que pagar todos os meses, tem uma lista exaustiva dos 25 medicamentos que toma diariamente, e tem que gerir sabiamente a reforma de pouco mais de 400 euros. Conta com auxílio alimentar, vive na Mouraria e diz não se importar se tiver de ir para um lar. Recorre com frequência a uma das técnicas da Associação Mais Proximidade Melhor Vida, que apoia idosos a viver na Mouraria e na Baixa de Lisboa. Frequentou um Centro de Dia e entusiasmou-se com os jogos de dominó e os passeios, mas descobriu uma grande incompatibilidade de feitios, prefere estar sozinho.

Lucinda habituou-se a comer a sopa dos pobres e não quer outra coisa. Mas há aqueles que por doença ou incapacidade deixaram de sair de casa, precisam da sobrinha para a gestão dos medicamentos, têm mobilidade muito reduzida, tricotam, vêm televisão, usam o telefone, são visitadas pelas funcionárias do serviço de apoio domiciliário. E há os cuidadores informais como Idalina, que se desloca sem dificuldade, gere o orçamento familiar, continua a cozinhar e a realizar todas as tarefas domésticas. Raramente vai à rua, não quer deixar o marido sozinho em casa, ele padece de Alzheimer. “O que começou por se manifestar em frases e ideias constantemente repetidas, transformou-se numa sucessão de episódios em que o Mário não reconhece a neta, a filha e o genro, em que não sabe onde está, nem o que faz. Usa palavreado grosseiro e exige a constante presença de Idalina. Há muitos anos que deixaram de conseguir manter uma conversa – Idalina não sabe quando foi a última vez que dialogaram verdadeiramente. Cansada e à beira de uma depressão, recorreu, no início de 2019, aos serviços de apoio domiciliário da Junta de Freguesia mais próxima. A primeira vez que vieram cá duas auxiliares para lhe dar banho foi um circo. O Mário não queria lavar-se, tentou sacudi-las, mas elas tiveram uma paciência infinita e convenceram-no”.

Há quem se mudou para uma república sénior, neste caso a que foi criada pelo Centro Social e Paroquial de S. Jorge de Arroios. Quem criou esta república apercebeu-se que muitos idosos da freguesia moravam em quartos alugados. “Não tinham recibos da renda, eram vítimas de violência e, nos casos em que conviviam com dependentes de álcool e de outras drogas, acabavam por ser alvo de furto. Muitos estavam mesmo impedidos de utilizar a cozinha comum, acabando por tomar refeições frias”. Há várias repúblicas em funcionamento e apraz registar a valorização da dignidade dos seniores.

A autora discorre sobre outras experiências, a de Maria de Lurdes que gosta das novas tecnologias, há quem viva em lares, há os esquecidos na Serra do Açor, enfim, um jornalismo de investigação sobre dificuldades e carências dos idosos em Portugal onde também há finais felizes.

Para quem estuda, para quem trabalha na problemática sénior, e para quem se quer preparar para um envelhecimento bem-sucedido, o livro Os Pombos da Senhora Alice dá inúmeras pistas, ajuda a compreender que há muito ainda a fazer com este segmento populacional tantas vezes entregue ao abandono.

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