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  • Beja Santos

Pio XII, o Terceiro Reich e a solução final para a questão judaica


Mário Beja Santos: Pio XII e o Terceiro Reich, por Saul Friedländer, Sextante Editora, 2020, é a reedição em 2010 de um trabalho de investigação apresentado ao público em 1964, uma reinterpretação do papel de Pio XII à luz das mais recentes investigações e com posfácio novo de Friedländer. O autor é um conceituado pesquisador da questão da Shoah (genocídio judaico), trabalhou nos arquivos do Terceiro Reich a documentação alusiva às relações entre a Santa Sé e a Alemanha de Hitler, a que incorporou documentos originários dos arquivos norte-americanos e israelitas. A publicação, ao tempo, foi alvo de imensas reações de apoio e viva contestação, quem apoiava as revelações de Friedländer dizia que Eugenio Pacelli era um obcecado anticomunista, conservador, contestatário da política do também conservador Pio XI, ferozmente antinazi, e que a pretexto de proteger a Igreja Católica na Alemanha e em Itália servira-se de uma diplomacia claramente favorável ao nazi-fascismo; quem contestava, contra-argumentava que as consultas a documentos diplomáticos, exclusivamente, dão uma imagem redutora do comportamento do Pontífice, ele dera provas eloquentes de repudiar a doutrina nazi e tudo fizera, a partir de Roma, e no uso da maior discrição, para acolher e salvar judeus, o que está historicamente comprovado.

Friedländer nem sempre é tão rigoroso como quer aparentar. É verdade que vasculhou muita documentação, por exemplo encontrou nos dossiês do Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros alemão papéis referentes aos assuntos vaticanos. Veja-se como ele procede a insinuações totalmente incompatíveis com a seriedade historiográfica: “O último dossiê que encontrámos foi o n.º 5, concluído a 15 de outubro de 1943; segundo as indicações que constam da lombada da pasta, existia o n.º 6, que desapareceu. Alguns documentos do dossiê n.º 6 foram identificados sob a forma de cópias nos ficheiros de outros departamentos do Ministério, mas o essencial do material escapou a todas as nossas pesquisas. Ora, esse material não poderia ter sido destruído pelos bombardeamentos, pois conservam-se os arquivos do gabinete do Secretário de Estado relacionados com outros assuntos, relativos ao período posterior a outubro de 1943. Apontemos casualmente que 15 de outubro de 1943 é data da deportação dos Judeus de Roma, à qual se seguiu a deportação dos Judeus do Norte da Itália. Será que o dossiê n.º 6 continha a narração das conversas entre Pio XII e o embaixador do Reich do Vaticano sobre tais acontecimentos?”. A insinuação que fica no ar é perfeitamente destemperada.

Eugenio Pacelli passou catorze anos na Alemanha, exerceu funções diplomáticas em Munique e Berlim, antes de ser cardeal secretário de Estado, até março de 1939, quando foi eleito Papa. O diplomata alemão acreditado no Vaticano dava dele a imagem de um conciliador e amigo da Alemanha. Mal eleito Papa, dirigiu-se a Hitler, recordando-lhe que tudo fizera para estabelecer relações harmoniosas entre a Igreja e o Estado. O Papa tenta a mediação na questão polaca, hoje sabemos as mentiras proferidas na cúspide nazi, alegando que tudo se estava a fazer para obter uma paz duradoura. Invadida e desmembrada a Polónia, Pio XII dirige uma mensagem de conforto, muito cuidada, a encíclica Summi Pontificatus, não deixará de enviar mensagens de conforto ao rei Leopoldo da Bélgica e à rainha Guilhermina da Holanda, muitíssimo mal recebidas em Berlim e Roma. Pio XII irá intervir, sem sucesso, na queda da França, estará permanente ativo na designada Nova Ordem Europeia. Friedländer compulsa todas estas trocas diplomáticas, colhe impressões sobre a posição do Vaticano quanto à invasão da União Soviética, os abomináveis massacres e deportações, o dossiê da “Solução Final”, estamos já em plena II Guerra Mundial com intervenção norte-americana, leem-se as cartas pontifícias para o arcebispo de Berlim e outros, a reação da Santa Sé à política antirreligiosa de Hitler e a partir de 1943, após Estalinegrado, parece crescer a preocupação de Pio XII com a vitória do bolchevismo, é um ano de tormenta, o fascismo italiano cai, os alemães entram em Roma, ocorre a deportação de Judeus de Roma e da Itália, Pio XII justifica o seu silêncio, sempre, para que não haja maiores massacres ou qualquer calamidade no tratamento dos católicos italianos e alemães. A deportação dos Judeus da Hungria leva a que a comunidade judaica apele à intervenção de Pio XII, tudo leva a crer que com pouco sucesso. O livro de 1964 termina com várias perguntas ainda sem resposta, tais como a posição de altos dignatários da Igreja que desejavam ardentemente a vitória dos nazis sobre os soviéticos e a linguagem extremamente afável do Papa sempre dizendo que guardava a Alemanha no coração.

No posfácio, Friedländer dá-nos um quadro que nos parece fidedigno da tradição ideológico-religiosa de Eugenio Pacelli. Iniciado no início do século na burocracia do Vaticano o Papa Pio X, foi formado na hostilidade total ao modernismo, ao liberalismo e às ideias socialistas. Friedländer, em nosso entender com pura leviandade, associa Pacelli a um antissemitismo em que navegavam muitas figuras da Cúria, isto quando o antissemitismo, está historicamente comprovado, era um estado de espírito dominante da França à Polónia, das classes médias para cima os Judeus eram vistos com desconfiança e tratados com a maior reserva. Núncio em Munique, em 1919, Pacelli assistiu a um quadro revolucionário que o ensombrou para o resto da vida. Friedländer recorda que voltou ao assunto em 2009, quando o Vaticano tinha já posto em marcha o processo de beatificação e canonização de Pio XII. Só muito incidentalmente é que há no trabalho de Friedländer a convocação do contraditório, são imensas as obras que testemunham o sentimento antinazi do Pontífice e as ordens que deu para proteger os Judeus em Roma.

Em breve saberemos mais, quando forem abertos os respetivos arquivos do Vaticano. Como escreve Friedländer, à luz dos documentos disponíveis, não se conhecem os verdadeiros sentimentos de Pio XII para com os Judeus. “O que não sabemos nem temos qualquer meio de saber – e é esse o cerne do assunto – é se, para Pio XII, a sorte dos Judeus da Europa apresentava uma situação de crise gravíssima e um dilema dilacerante ou se se tratava apenas de um problema marginal que não constituía um desafio para a consciência cristã”.

Mesmo com as reservas acima apontadas, para quem se interessa por este período da História, é obra de consulta indispensável.

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