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  • Beja Santos

Os desafios que o envelhecimento põe à sociedade portuguesa, de hoje para amanhã


Mário Beja Santos: Os prestáveis manuais vendidos a 1€, na parceria entre a Fundação Francisco Manuel dos Santos, Pordata, RTP e Jornal Público acabam de revelar dados atuais sobre o envelhecimento dos portugueses, é o título do trabalho de Maria João Guardado Moreira Como Envelhecem os Portugueses.

É já superior a 22% a população portuguesa com 60 e mais anos, 7% ultrapassa os 80 anos. Este disparo na esperança de vida deve-se a múltiplos fatores: melhoria dos cuidados de saúde, estilos de vida mais saudáveis, onde se inserem uma infinidade de elementos como a vida de relação mais alargada, mais convivência em meios urbanos, aumento da ocupação, entre outros. O que a investigadora revela é imperioso ter em conta em todas as medidas de política, desde a Saúde e Segurança Social, passando pela Educação e Cultura, Transportes e Equipamento e Desporto. O envelhecimento é um dado irreversível. Em 1960, a esperança de vida à nascença rondava os 64 anos. Cerca de 60 anos depois, estes valores situavam-se nos 81 anos, e segundo as projeções em 2080 chegarão aos 87,4 anos para os homens e 92,1 para as mulheres. Os geriatras e gerontólogos interrogam se este aumento de esperança de vida é acompanhado, ou não, por um aumento de tempo vivido sem incapacidade. Não se admire pois o leitor de as políticas de Saúde irem conhecer uma forte reversão no que toca à educação para a Saúde, à literacia em Saúde, no conceito de autonomia do doente por forma a gerar melhores níveis de capacitação e de adesão às terapêuticas, um maior enfoque do diagnóstico precoce, entre outras atitudes. Este é um desafio para a saúde, mas subsistem outros, é um vasto arco que vai desde o combate à solidão ao combate à violência doméstica nesta sociedade em que diminuem os jovens e aumentam os idosos.

A infoexclusão é dado irrefutável: Portugal está na cauda dos países da União Europeia, só à frente da Roménia, Grécia e Bulgária, na percentagem de indivíduos entre 65 e 74 anos que em 2019 acederam à internet, em média, pelo menos uma vez por semana. Esses mesmos seniores revelam que só 28% deles utilizam o computador. A solidão força uma intervenção em várias frentes, a das autarquias não é a menor: são várias centenas de milhares de idosos que vivem sozinhos, a autora refere que 20% da população com 60 e mais anos vivia sozinha e 40% com outros do mesmo grupo etário, de acordo com os Censos de 2011. O poder de compra é outro desafio, cerca de milhão e meio das pensões de velhice têm um valor inferior ao salário mínimo nacional. É certo que se tem reduzido a taxa de risco da pobreza devido à implementação de várias medidas sociais, mas os números de vulnerabilidade económica continuam a ser altamente preocupantes.

Depois de saber quem são os seniores, importa saber onde vivem. Logo nas regiões que primeiro começaram a perder população, pensa-se em concelhos como Idanha-a-Nova, Penamacor, Vila Velha de Ródão e Alcoutim. Dados recentes (2019) confirmam o crescimento dos seniores na interioridade, temos 62 concelhos com mais de 32% da população idosa, o alastramento chega às principais cidades. Como observa a autora, os cinco centros urbanos com o índice de envelhecimento mais elevado eram, em 2011, Gouveia, Borba, Porto, Lisboa e Estremoz. Este é o desafio de adaptação ao novo perfil demográfico em meio autárquico: habitação, acessibilidades, transportes, espaços e edifícios públicos. E com quem vivem os seniores? Já se referiu que 60% da população mais velha vive sozinha ou com outras pessoas do mesmo grupo etário. Acentua-se a tendência para as famílias de uma só pessoa. É nas regiões do interior que vivem mais idosos sozinhos e, tendencialmente, quem vive sozinho são mulheres, viúvas, com níveis baixos de escolaridade e em situações de reforma. É baixa a percentagem de seniores que vive em instituições de apoio social, as percentagens mais elevadas a viver em lares de idosos situa-se nas Beiras e Serra da Estrela, Alentejo, Trás-Os-Montes e Beira Baixa; nas Regiões Autónomas destaca-se a ilha Graciosa, 15% da população está em lares. Quando se pergunta a um idoso onde quer viver, a maior parte responde “na minha casa”. Temos os cuidadores informais, fundamentalmente os membros de família, escreve a autora que 7% das mulheres portuguesas com 75 e mais anos e 4,8% dos homens da mesma faixa etária prestam cuidados informais na mesma casa. Estes cuidados informais são principalmente assumidos pelas mulheres. As principais ajudas são, portanto, os cônjuges e os filhos. A família continua a ter um papel fundamental na saúde e no bem-estar da população mais velha.

A saúde é o tema dominante, a perda de autonomia, os graves problemas de mobilidade, o vestir-se ou o despir-se, as próprias tarefas domésticas desde ir às compras, preparar as refeições ou gerir dinheiro, geram confusão, humilhação, podem até ser uma autêntica tortura na evolução da perda de autonomia. Num quadro de 28 países, Portugal ocupa no Índice de Envelhecimento Ativo a 19ª posição, o que deve preocupar governantes e decisores de toda a ordem, como melhorar estes indicadores dando aos seniores atividade física e intelectual, pondo-os em contato, promovendo eventos, como tantas autarquias tentam organizando bailes ou excursões, aulas de ginástica, sessões de leitura, ação social na distribuição de refeições ou na organização de centros de dia. E como também recorda a autora, é preciso estar atento ao tratamento dos seniores, os fatores que vão desde a discriminação (maus-tratos, insultos, abuso ou recusa de serem atendidos em determinados serviços) a comportamentos pouco respeitosos, mero paternalismo ou serem ignorados. Existe violência em contexto institucional, felizmente que as denúncias são cada vez maiores, o que contribui para a sensibilização das populações.

Sendo o terceiro país com maior percentagem de idosos, a política para o envelhecimento devia ser objeto de um departamento enquadrador dos desafios resultantes que se colocam à sociedade portuguesa, uma boa parte dos departamentos governamentais e das autarquias estão implicados em tais medidas políticas: impulso à participação social dos seniores, medidas que melhorem o número de anos de vida saudável, atração ao uso de tecnologias de informação e comunicação, dar uma nova fisionomia ao que significa hoje envelhecer em casa e na comunidade. É um envelhecimento bem-sucedido que pode colocar Portugal no topo dos indicadores do desenvolvimento humano. Mas para isso temos que aprender a trabalhar em novos níveis de convergência para que as medidas intersectoriais superem as capelinhas que tantos gostam para ser reizinhos.

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