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  • Beja Santos

O terceiro ditador da família real da Coreia do Norte, infâmia e astúcia


Mário Beja Santos: O Grande Sucessor, por Anna Fifield, Casa das Letras, 2019, é um prodígio do jornalismo de investigação, a autora, que é chefe da delegação de Pequim do Washington Post faz jus a uma narrativa trágico-cómica que põe em sequência as décadas da ditadura norte-coreana, desvela os seus próceres e concentra-se no terceiro Kim, petulante e obcecado pelas armas nucleares. Uma oportunidade única para o leitor leigo imergir na península da Coreia, no surrealismo ditatorial em que vivem 25 milhões de pessoas sujeitas ao mais bizantino culto da personalidade, de quem o próprio José Estaline teria inveja. Esse mesmo leitor vai apreender como o primeiro dos Kim, o Grande Líder, o Sol da Nação e o Brilhante Comandante Eternamente Vitorioso Kim Il Sung foi apoiado pelos chineses depois da derrota japonesa e se deu ao trabalho de montar uma mitologia que os seus dois sucessores reforçam com um certo toque de modernidade. A clique governante vive em meios luxuosos. Por exemplo, em Wonsan, um paraíso com praias e areais brancos, estância de verão, o Monte Carlo da Coreia do Norte, primam as luxuosas residências para as diferentes famílias, não faltam iates nem motas aquáticas, obviamente que o Grande Sucessor tem direito a uma pista de aterragem para pilotar o seu avião pessoal.

Não é inteligível o poder do déspota atual sem ir atrás à mitologia montada por Kim Il Sung, efetivamente ele foi um guerrilheiro anti-japonês, foi escolhido por Moscovo e Pequim, Estaline permitiu que o primeiro Kim se lançasse à conquista da Coreia do Sul, os Estados Unidos travaram-lhe o ímpeto, foi uma guerra hedionda, três milhões de coreanos mortos, feridos ou desaparecidos. Como nem o Norte apoiado pelos chineses e os soviéticos nem o Sul apoiado pelos norte-americanos podiam vencer em definitivo, os dois lados concordaram num armistício, em julho de 1953, depois de três anos de conflito devastador.

O primeiro Kim decidiu que não era um fantoche nem dos chineses nem dos soviéticos, começou a posicionar-se como um grande pensador, criou a fábula de um país independente, a Coreia do Norte estaria destinada a ser autos-suficiente, toda esta mitologia durou até à queda do Império Soviético e às mudanças radicais no comunismo chinês que apostou no modelo desenvolvimentista onde a iniciativa privada e as fortunas multimilionárias são autorizadas. Anna Fifield revela-nos o mundo familiar da linhagem Kim, é um aspeto fascinante, parece que voltámos ao Império Romano onde não faltam execuções, exílios, detenções, humilhações de toda a espécie. O sucessor do primeiro Kim, Kim Jong Il, mantinha todas as suas famílias separadas, os filhos cresceram sem conhecer os meios-irmãos. Sucedeu ao primeiro Kim em 1994, na época uma fome avassaladora assolava o país. O terceiro Kim foi educado em Berna, um dos seus poucos amigos foi um jovem imigrante português, João Micaelo, frequentou a sua casa, o futuro Grande Sucessor adorava o basquetebol e as máquinas. A jornalista interpelou testemunhas na Europa e na Ásia, muitos dos evadidos da Coreia do Norte o que lhe pediram foi que não usasse os seus verdadeiros nomes e momentos há desta narrativa em que se percebe que a realidade supera a ficção, ficamos a conhecer aspetos estonteantes da vida privada desta família real comunista que adora opíparos banquetes, onde não faltam os mais caros caviares, e onde é natural que o Partido dos Trabalhadores aceite e incentive os preparativos da sucessão. Os Kim, os dois últimos, adulam ao extremo o primeiro, e o terceiro pratica o culto do segundo em permanência. Os líderes são incontestáveis, os falhanços são sempre apresentados como obra dos governantes.

O terceiro Kim ascende ao mando absoluto num período crítico para velhas ditaduras, da Tunísia à Líbia e do Egito à Síria as autocracias com desígnios dinásticos pareceram ameaçadas, o jovem Kim logo isolou o país, apertou as medidas severas da proteção do Estado, atribuiu-se uma vasta série de longos títulos: General Invencível e Triunfante, Líder Decisivo e Magnânimo, Sol da Revolução, Sol do Socialismo, Sol Brilhante do Século XXI. E anunciou o desenvolvimento do programa nuclear, primeiro com mísseis de longo alcance. Recorreu moderadamente à livre iniciativa, à sua volta a China expandia as atividades económicas, o Vietname aceitava cada vez mais a iniciativa privada, a Coreia do Norte era um desastre: “Os campos eram lavrados por bois. Os camiões moviam-se a madeira queimada. As fábricas paralisavam por falta de eletricidade e matérias-primas. Em 2005, o PIB da Coreia do Norte era cerca de 550 dólares per capita, 36 vezes menor que o da Coreia do Sul. A Coreia do Norte estava entalada nas tabelas económicas das Nações Unidas entre o Mali e o Usbequistão, enquanto a Coreia do Sul estava mais à frente com Portugal e o Bahrain. O Grande Sucessor teve forçosamente que melhorar as condições de vida dos seus concidadãos e a autora dá-nos um quadro aliciante do que é uma economia de expedientes. Os cidadãos, no entretanto, são educados no culto da personalidade, iremos ver como o terceiro Kim se desembaraçou de familiares e figuras outrora carismáticas e gerou uma nova elite de apaniguados indefetíveis. No maior sigilo, o Grande Sucessor vive com Ri Sol Ju e nada se sabe sobre a educação que está a ser dada aos descendentes. Na capital, Pyongyang, crescem os empreendimentos imobiliários, os parques e as piscinas. Com o passar dos anos, o Grande Sucessor passou a deter o controlo absoluto. O irmão mais velho de Kim, Kim Jong Nam, foi assassinado no aeroporto internacional de Kuala Lumpur, Kuala Lumpur reagiu expulsando o embaixador norte-coreano, mas voltou-se a uma certa normalidade e chegamos a 2017 quando a Coreia do Norte passa a deter a bomba de hidrogénio, já não bastava que o Grande Sucessor tivesse o quatro maior exército do mundo, ele cria um programa nuclear imparável, ele começa a ser mostrado a inspecionar dispositivos nucleares, passa a ser público e notório que há um programa de mísseis balísticos. O Grande Sucessor podia dar-se por feliz, era um tirano cruel mas indiscutível, quis então criar a imagem de que era compassivo e progressista, procedeu a uma encenação para melhorar as relações com o mundo exterior. Foi à Coreia do Sul, prometeu uma maior cooperação com os irmãos desavindos. Trump aceitou conversar com ele, Trump contava com um trunfo, o ceticismo chinês quanto ao programa nuclear do terceiro Kim. O terceiro Kim foi a Pequim, onde fez juras de fraternidade e apelos à paz. Começaram as reuniões com Trump, reúnem-se em Singapura, em 2018, os conselheiros de Trump advertiram que não era assim que os EUA iriam conseguir que a Coreia do Norte renunciasse às suas armas nucleares. Anna Fifield dá o seu melhor nesta extraordinária peça de investigação jornalística a desmontar a mascarada do Grande Sucessor que anunciava ao mundo que a vida na Coreia do Norte estava a melhorar. E temos novo encontro com Trump, um falhanço absoluto, um balde de água fria nas expetativas de Trump. O Grande Sucessor conseguira o que os dois primeiros Kim jamais alcançaram: chegou a conversações diretas com o Senhor de Washington, convenceu Pequim que o seu programa nuclear era meramente defensivo, diz que um dia é bem possível haver bons resultados nos EUA, tornou-se num verdadeiro artista que a todos engana e que dispõe de um controlo absoluto, inequívoco, numa Coreia do Norte que vive fora do universo.

Uma peça jornalística deslumbrante, um fabuloso retrato de uma família de ditadores do país mais isolado do mundo.

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