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  • Beja Santos

O significado da literacia na cidadania em Saúde


Mário Beja Santos: Nunca como hoje se falou tanto em autonomização, em capacitação do doente ou do utente de saúde, nas suas vantagens para melhor se garantir um acesso mais fácil a estilos de vida saudáveis. Os ganhos são óbvios para quem promova a sua saúde e previna oportunamente a eclosão da doença, melhora a qualidade de vida, há maior sustentabilidade nos sistemas de saúde, o envelhecimento é mais bem sucedido. Tem-se definido literacia em saúde como uma capacidade que permite à pessoa obter, processar e compreender informação básica em Saúde e saber usar serviços, tomando as decisões mais apropriadas ao nível da sua própria saúde, partilhando com outros doentes ou utentes de saúde os seus ganhos em capacitação.

Esta capacidade depende do recurso a estratégias: materiais educativos, envolvendo os doentes na preparação e avaliação dos materiais; verificações periódicas por parte dos profissionais sobre a compreensão das instruções/recomendações dadas aos doentes. Será o caso típico da pergunta do médico ao doente: “Pode agora dizer-me pelas suas próprias palavras de que é que nós tivemos a conversar e quais foram as indicações que eu lhe dei para o seu tratamento?”; mas há ainda folhetos informativos que tenham em conta testes de compreensão; e falando dos bancos da escola e na formação permanente, mostra-se imperioso inserir nos currículos universitários módulos de comunicação com os doentes e os utentes para preparar futuros profissionais que saibam lidar com estes processos de literacia e obter a concordância dos seus doentes e utentes de saúde.

O mundo digital na Saúde abre imensas janelas de oportunidade: a telemedicina já está aí, a assistência médica online é uma realidade, o SNS 24 é um verdadeiro sucesso, o Google Health tem cada vez mais procura em todo o mundo. Enfim, cidadania em Saúde é uma aprendizagem, envolve o saber pedir conselho ao médico, ao farmacêutico e ao enfermeiro, significa uma assunção de competências pessoais de forma a utilizar as informações e os serviços disponíveis para tomar decisões esclarecidas em matéria de Saúde.

Não há métodos-padrão para a literacia em Saúde, é um conceito evolutivo, acresce que a sua aplicação varia de país para país, há quem a coloque na Saúde Pública e também nos serviços clínicos. Vê-se que a Direção-Geral de Saúde e o INFARMED dispõem hoje de processos comunicativos que cuidam de chegar ao grande público. As associações de doentes, os promotores de saúde, as associações de consumidores e de cuidadores deviam ser instados a promover atividades seja com os centros de Saúde, com as ordens profissionais, com os médicos de família, com as farmácias comunitárias, com as universidades sénior, com os lares e residências sénior, por exemplo. O Ministério da Educação deveria afinar a sua orientação para a promoção e educação para a Saúde contando não só com os estabelecimentos escolares mas elaborando módulos que não fiquem confinados à nutrição, à educação sexual ou às informações sobre as toxicodependências, os meios são escassos mas existem os parceiros que deviam ser convocados para dar apoio. É o caso das ordens profissionais e de todos os parceiros que atuam na Saúde a nível local.

A literacia em Saúde é universalmente reconhecida como uma determinante nas políticas de Saúde, tem todos os requisitos para, por exemplo, no quadro das doenças crónicas não-transmissíveis assegurar uma vida com mais qualidade: a diabetes, as doenças do foro cardiovascular, as afeções das vias respiratórias, as doenças reumáticas, os cancros. Urge que a sociedade se reorganize para encontrar os melhores caminhos para que os doentes mais autonomizados sofram menos e partilhem com os outros os seus ganhos em Saúde.

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