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  • Beja Santos

O que faz de uma novela um dos maiores clássicos da literatura do século XX


Mário Beja Santos: A Metamorfose, agora editada na Coleção Miniatura, Livros do Brasil/Porto Editora, tradução do alemão, é uma novela que foi publicada em 1915, a Europa está em guerra, Franz Kafka pertence ao Império Austro-Húngaro, está centrada em Gregor Samsa que acorda de sonhos inquietos e se vê na sua cama transformado de uma forma radical, num monstruoso inseto. Numa casa pautada pela ordem, este funcionário eficiente e pontual vai provocar o terror da família que dele fugirá com asco, embora a irmã de Gregor tenha teimado pela solicitude até perder a esperança de que aquela monstruosidade conhecesse regressão.

Não há na novela um enquadramento da chamada literatura naturalista, nem se encontram vestígios de uma corrente literária que em breve fará voga, o surrealismo. É uma metáfora de alguém que é confrontado com a repugnância que provoca nos outros, forçado a esconder-se, a ver e a sentir a rejeição familiar, banido da sociedade que o vê desaparecer numa total e trágica indiferença. Não se fala da alucinação da guerra, a vida daquela família até anda bastante aquém da modernidade, mas a metáfora aprofunda dimensões da vida do novo século na Europa que talvez valha a pena contextualizar para se perceber como a novela é hoje património incontornável da melhor literatura novecentista. Estamos em plena Belle Époque, fala-se em tempos de euforia mas esquece-se que as Belas Artes contemporâneas do aparecimento de A Metamorfose nos revelam a solidão daqueles que não estão na vanguarda da euforia que se vive nas cidades, é nas metrópoles que se sente a vivência tecnológica, o industrialismo, as novas correntes estéticas, a pintura está a abandonar o figurativismo, privilegia a funcionalidade, os novos rasgos da arquitetura, o romantismo e o simbolismo diluem-se, mas são tempos de violência, e é talvez desse furor que decorreu da tensão entre impérios que Kafka nos fala do pesadelo da alienação, a imagem pictural desmantela-se, como se irá desmantelar a rede das cumplicidades familiares, a vida tem agora formas poéticas de descontinuidade, essa descontinuidade está patente no cubismo e nos alvores do construtivismo, estão a aparecer os primeiros futuristas entusiasmados pelos movimentos rápidos, pelo automóvel e pelo comboio, pela telegrafia sem fios, pela fotografia que irá impor uma revisão no olhar de dois artistas plásticos.

A cidade de Praga por onde deambula Franz Kafka vive à distância estas tensões, se bem que tenha aderido rapidamente à Arte Nova, esteja a repudiar o academismo, e é sabido que os séculos irão ser em breve uma potência industrial de respeito. Há vanguardas literárias ao tempo de Kafka, seria fastidioso passar em revista aqueles que vão desenvolver obras em torno do absurdo, do dadaísmo, afrontar o racionalismo e entusiasmar-se pelo mundo da psicanálise, introduzindo esquemas literários como os James Joyce, que alteraram a perspetiva clássica entre a superfície e o espaço.

Então, quais os condimentos que vão alçapremar esta trama de Gregor Samsa transformado em inseto num regalo literário e no exame de consciência de uma época? Primeiro, o choque do racionalismo, acorda-se diferente mas com a razão antiga, tudo parece um contratempo ligeiro, seria impensável chegar à hora de uma desordem violenta, irrefragável. Segundo, quem está do lado da razão antiga procede a um chamamento à ordem como se Gregor Samsa tivesse tido um devaneio, isto enquanto ele faz tudo o que lhe é possível para abrir a porta e para exibir uma calamidade que ainda não está quantificada. Quando se apresenta, é recebido com um misto de horror, todo e qualquer sentido da previsão acaba por se alterar, a família força-o a ficar no quarto, aquele homem inseto desobedece à ordem dominante, ficam na incomodidade os afetos familiares. Gregor não possui o sentido da previsão de como ultrapassar a transformação, se ela é mesmo duradoura ou de pouca monta. Terceiro, não há amor que resista a uma transformação com tal dimensão, aquele ser não pertence à ordem estabelecida, não é admissível qualquer forma de integração, nem interessa saber se aquele homem inseto ama, raciocina ou é recuperável, tornou-se um embaraço para a família e para a sociedade. E aí uma das capacidades de antecipação de Kafka sobre os condicionamentos da liberdade, as novas formas de violência, o desmantelamento da imagem, as tensões com o incompreendido. Porque nas décadas seguintes irão ocorrer outras metamorfoses graças aos saltos tecnológicos, às novas dimensões da arte, há como que nesta novela de Kafka um cenário antecipado do mundo entre guerras que em breve vai começar, com a ascensão do totalitarismo, do mais virulento racismo, da ganância imperial. A família perdeu a fé na recuperação de Gregor Samsa, ele vai ficar banido de atenções e afetos, houve mesmo a tentação de não lhe poupar a vida. O dinheiro que Gregor Samsa ganhava faz falta à família, há que alugar quartos, mas descobre-se que quem chega também se horroriza com aquela aventesma.

O homem inseto, inerme, desapontado com ele próprio, morre e a família recupera hábitos do passado, livre do empecilho retoma projetos, a irmã de Gregor Samsa, possuidora de um jovem e belo corpo, tem sonhos e o casal Samsa aposta no seu futuro. O incómodo daquela transformação já libertou a família do pesadelo de ter que conviver com a mais desagradável das anomalias. É como se Kafka nos estivesse a dizer que ele tem um sentido oculto de que estão a emergir alterações profundas, como se ele pudesse ler profecias nas paredes, o mundo latente que por aí vem e que traz a guerra, o comunismo e o fascismo, novas filosofias, Einstein, a biofísica, a revolução da comunicação e dos transportes, saltos vitoriosos e novas dimensões de um progresso que farão avançar a humanidade, não deixando, porém, de se sentir o diacronismo entre a expetativa de um progresso e de um conforto e as novas ameaças à dignidade humana – elas já estão em curso e irromperão em cena pouco depois da publicação de A Metamorfose.

Um clássico para conhecer ou para rever, ainda por cima numa boa tradução de Álvaro Gonçalves.

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