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  • Beja Santos

O que é a dispensa de medicamento com conselho?


Beja Santos: Uma das facetas mais positivas da nova mentalidade no campo da Saúde é a aspiração sincera que vemos em todos os grupos profissionais em quererem melhorar a sua comunicação com os utentes e doentes. O parecer médico indiscutível já não existe, o farmacêutico já não dispensa mecanicamente medicamentos, com receita médica ou não, conversa com o médico em situações delicadas, que podem decorrer da falta de informação do médico e que está em poder do farmacêutico. O enfermeiro enveredou pela especialização e prevê-se que o enfermeiro de família vai ser uma peça fundamental no acompanhamento das terapêuticas e no diálogo com o médico. Do lado do utente e do doente, desenvolve-se a literacia e os autocuidados. Literacia em Saúde entende-se como a capacidade para ler, compreender e lidar com a informação de Saúde. O doente passivo e obediente ao poder majestático do médico já não existe: é crescente o número de doentes que pede uma segunda opinião médica e o Google Health tem cada vez mais procura em todo o mundo.

Uma das dimensões fundamentais da profissão farmacêutica é a dispensa com conselho. Não há medicamentos inócuos, importa sempre saber quando se passa a tomar o medicamento se haverá contraindicações, interações e efeitos secundários. A questão é tão mais premente quando o doente toma vários medicamentos para várias doenças de que padece. E no contexto da doença crónica, por exemplo, não se pode tomar à toa um qualquer medicamento para tratar da constipação, do nariz entupido, da prisão de ventre ou da tosse. Estes medicamentos, habitualmente classificados como não prescritos pelo médico, exigem precauções de utilização. No caso da constipação, uns não podem ser tomados por pessoas com problemas de estômago, como gastrite ou úlcera; outros não podem ser tomados por doentes asmáticos e alérgicos; outros não podem ser usados por doentes cardíacos, por hipertensos, pessoas que tiveram enfarte, arritmias com pulso rápido; alguns não devem ser tomados por pessoas que conduzem e obrigam a evitar as bebidas alcoólicas por risco de sonolência aumentada e de acidentes; muitos não podem ser tomados por pessoas a tomar anticoagulantes; alguns são prejudiciais para doentes com hipertrofia da próstata e com glaucoma, havendo também que ter em conta que o uso frequente e doses elevadas de alguns podem afetar gravemente o fígado. E podemos passar da constipação para o nariz entupido, para a tosse ou para a prisão de ventre, a lista de situações delicadas é infindável.

Daí a preocupação que todos os utentes e doentes devem ter no aconselhamento farmacêutico, não se deve sair da farmácia sem se saber porque é que se vai tomar aquele medicamento, os horários de toma, o que fazer se houver reações adversas. A dispensa de qualquer medicamento é sempre personalizada, daí ser totalmente desaconselhado chegar à farmácia e pedir um medicamento que o vizinho acha que faz bem. De igual modo, não deve haver automedicação sem suporte do aconselhamento farmacêutico. Enfim, em caso algum, quando falamos de medicamentos não prescritos pelo médico, nos devemos privar das orientações do farmacêutico quanto à escolha do melhor medicamento para a resolução das nossas queixas. E quando não se melhora ou o estado de saúde piora, este aconselhamento revela-se determinante para que o doente seja rapidamente encaminhado para o médico.

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