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  • Beja Santos

O primeiro romance de John le Carré e o seu último texto


Mário Beja Santos: O primeiro romance de John le Carré surgiu em 1961 e para a edição comemorativa dos 60 anos John le Carré terá escrito o prefácio, certamente o seu último texto literário. Foi uma estreia literária promissora, dois livros adiante iria aparecer aquela que será seguramente a obra-prima absoluta da literatura de espionagem, O Espião que Veio do Frio. Em Chamada para o Morto aparece uma figura seminal de toda a literatura de John le Carré, George Smiley, le Carré escreverá o seguinte no final desta introdução da edição comemorativa: “Crescemos juntos, modificámo-nos e amadurecemos juntos, e vimos o seu retrato requintadamente recomposto por dois grandes atores, Alec Guinness e Gary Oldman. Para mim, porém, continua a ser o mesmo compartilhador de segredos introspetivo sobre o qual escrevia em pequenos blocos de apontamentos no sacolejante comboio de Great Missenden a Marylebone”.

George Smiley é um funcionário dos Serviços Secretos (discretamente fala-se de Informações), assim apresentado: “Baixo, gordo e de temperamento calmo, parecia gastar uma porção de dinheiro em roupa francamente má, que lhe ficava a nadar no corpo atarracado como a pele num sapo encolhido”. É um homem tristonho e solitário, a mulher abandonou-o, trocou-o por um jovem cubano, corredor de automóveis. Este repúdio marcou-o em definitivo: “A parte de Smiley que sobreviveu era tão incongruente com a sua aparência como o amor: foi a sua profissão, que era a de funcionário dos Serviços de Informações. Tratava-se de uma profissão de que gostava, e que misericordiosamente lhe facultava colegas igualmente obscuros quanto à personalidade e à origem. Facultava-lhe também aquilo de que em tempos mais gostara na vida: incursões académicas no mistério do comportamento humano, disciplinadas pela aplicação prática das suas próprias deduções”. Há algo de aparentado com o transcurso curricular de John le Carré, Smiley e le Carré estudaram em Oxford, le Carré trabalhou na Alemanha Ocidental e não foi alheio a missões de espionagem e interessou-se pela cultura alemã, tal como Smiley. Numa água-forte, le Carré fala-nos da II Guerra Mundial e da Guerra Fria, e inesperadamente entramos na teia romanesca, atenda-se ao que se escreve na contracapa de Chamada para o Morto, por John le Carré, Publicações Dom Quixote, 2021: “Após uma rotineira entrevista de segurança, George Smiley concluiu que o afável funcionário público Samuel Fennan não tinha nada a esconder. Mas, pouco depois, o homem do Ministério dos Negócios Estrangeiros aparece morto e todas as circunstâncias são coerentes com um suicídio. Quando Smiley percebe que Maston, o chefe do Circus (Serviços Secretos), está a tentar culpabilizá-lo por esta morte, desencadeia uma investigação por sua conta, procurando a viúva de Fennan a fim de averiguar o que o teria levado a semelhante ato de desespero. Quando expõe as suas descobertas a Maston, é afastado da investigação, mas nesse mesmo dia Smiley recebe uma carta urgente do falecido. Será que os alemães de Leste – e os seus agentes – sabem mais sobre a morte daquele homem do que o Circus imaginava?”.

É a espionagem e a duplicidade dos seus agentes em que vamos emergir. Logo as perguntas cortantes de Maston a Smiley, querendo apurar o que ele sabia do interrogatório a Fennan. Depois, vamos familiarizar-nos com o talentoso recorte de perfis, uma constante literária de John le Carré, começando com Elsa Fennan: “Era uma mulher franzina e vigorosa, dos 50 e tal anos, com o cabelo muito curto e pintado de cor de nicotina. Embora frágil, transmitia uma impressão de resistência e coragem, e os olhos castanhos que brilhavam na cara miúda e angulosa possuíam uma espantosa intensidade. Era o rosto de uma criança que envelhecera de fome e exaustão, o eterno rosto da refugiada, pensou Smiley”. A conversa decorre em tensão de alta voltagem: “Eu devia estar a chorar, imagino, mas já não tenho lágrimas, Mr. Smiley: sou estéril; os filhos da minha mágoa estão mortos. Obrigada por ter vindo, Mr. Smiley; agora pode voltar, não há nada que possa fazer aqui”. Algo de insólito se passa, houve uma chamada do serviço de despertar para Samuel Fennan, ninguém pede o serviço de despertar e suicida-se. A carta da despedida de Samuel Fennan também deixa transparecer que fora escrita por outra pessoa. E vão ser postos em cena outros personagens, aparecerão nomes que subsistirão em obras posteriores, entrou-se na investigação que o chefe do Serviço de Informações claramente repudia, o melhor é ficarmos com a versão oficial de um suicídio. E Smiley tem nova prova do suicídio encenado pois recebe nova carta de Samuel Fennan a pedir para almoçar nesse mesmo dia. Quando chega a casa, descobre que há intrusos, refugia-se em casa alheia, procura-se um vendedor de automóveis, Smiley é agredido, está criada a atmosfera de que espiões estão associados à morte de Fennan.

Descobre-se, através da matrícula de um automóvel vendido em segunda mão, da existência de alguém que contata regularmente o casal Fennan, iremos chegar a uma companhia de teatro amador para saber de que forma se trocam informações. O fantasma judaico é omnipresente e ficaremos igualmente a saber que Smiley em tempos de Guerra Fria preparou espiões alemães, um deles virou o bico ao prego, Dieter Frey. Nova descrição: “O Dieter era um rapaz muito bem parecido, de testa alta e uma farta e rebelde cabeleira negra. Tinha a parte inferior do corpo deformada, julgo que pela paralisia infantil. Usava bengala e apoiava-se pesadamente nela ao andar”. Por portas e travessas, Dieter transfere-se para a nova ordem da Alemanha Oriental. Envia ao Reino Unido agentes, mas desta vez ele anda por ali à solta e reencontrou o falecido Fennan com George Smiley, desconfiou que estava em curso uma traição de Fennan, daí a necessidade de o fazer desaparecer. A Alemanha Oriental tem um biombo em Londres onde se sediam os seus espiões, a Missão do Aço, um pretenso espaço comercial. O vendedor de automóveis aparece morto. Smiley regressa a casa e recorda o encontro com Dieter Frey em Dresden, cidade que ele adorava pela sua estranha mistura de edifícios medievais e clássicos, que lhe lembravam Oxford. Chegou a hora da caça ao homem, estende-se a armadilha. É nisto que chega uma carta da ex-mulher que deixa Smiley gelado: “Meu querido George, quero fazer-te uma proposta que nenhum cavalheiro poderia aceitar. Quero voltar para ti. Estou no hotel Baur-au-Lac, em Zurique, até ao fim do mês. Diz-me qualquer coisa, Ann”. Chegámos ao último ato, não quero tirar a surpresa ao leitor. As contas estão saldadas e George apanhou o voo da meia-noite para Zurique. Se há embustes na espionagem, há-os também no amor, Ann aparecerá noutros livros de John le Carré, ajuda a definir o espião resignado, solitário, dotado de um formidável juízo dedutivo, que em muito contribui para fazer dele o mais vingativo dos anjos guerreiros da Guerra Fria. O primeiro livro de uma carreira assombrosa, inesquecível.

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