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  • Beja Santos

O livro indispensável para compreender África após a descolonização


Beja Santos:

Para muitos considerado como o melhor repórter do século XX, o jornalista polaco Ryszard Kapuscinski aterrou em África em 1957 e nos quarenta anos que se seguiram aproveitou todas as oportunidades para lá voltar. “Ébano, febre africana”, Porto Editora, 2018, é o relato admirável de quem chegou ao Gana naqueles tempos de inocência, a atração mundial dava pelo nome de Kwame Nkrumah Osagyefo, primeiro-ministro e

líder do Gana, exaltado como o líder de toda a África e de todos os povos oprimidos. Como se sabe, tudo acabou com o afastamento do salvador Nkrumah, que vive intermitentemente à procura da estabilidade, como a generalidade dos Estados africanos. O jornalista embrenha-se no terreno, domina os dossiês, observa as mentalidades, a sua distanciação é a mais alta chancela de confiança que pode dar aos leitores. E tem ideias seguras sobre as matrizes africanas, um exemplo: “Em toda a África, as comunidades de maior dimensão têm uma cultura própria especial, um sistema de costumes e valores autónomo, uma língua sua e um conjunto de tabus, tudo extremamente complicado. Daí o facto de os grandes antropólogos nunca terem falado de uma ‘cultura africana’ ou de uma ‘religião africana’, porque sabem que isso não existe”. Fala com à vontade sobre feitiçaria, povos nómadas e sedentários, desvela golpes de Estado que têm tanto de grotesco como de selvático e tribal, põe a nu certos contrassensos do colonialismo que marcam com ferrete os tempos atuais: “A política interna africana e a dos seus Estados é complicada e difícil de perceber. Tal situação deve-se, sobretudo, ao facto de, aquando da partilha de África entre eles, os colonizadores europeus terem reduzido a pouco mais de quarenta colónias os cerca de dez mil pequenos reinados, federações e associações de tribos não estatais, mas independentes, que existiam neste continente na segunda metade do século XIX. Muitos destes reinos e associações tinham um longo historial de conflitos e guerras entre si. E, de repente, viram-se forçados, sem que ninguém lhes pedisse a sua opinião, a integrar a mesma colónia, sendo regidos pela mesma potência (estrangeira) e pelas mesmas leis”.

Aproveitando uma doença frequente em África, refere as suas manifestações, tem tanto de vibrante como de esclarecedor, é da melhor literatura: “Uma crise de malária significa não só dor, mas é, como toda a dor, um acontecimento místico. Entramos num mundo que ainda há instantes ignorávamos e constatamos que convivemos muito de perto com esse mundo, mundo que acaba por nos vencer e fazer tomar parte dele: descobrimos dentro de nós vales, fendas e abismos glaciares, cuja existência nos enche de sofrimento e de medo. Mas este momento de reconhecimento passa, os demónios deixam-nos e desaparecem. Todavia, o que fica debaixo dessa montanha de novas sensações é digno de compaixão. Uma pessoa, depois de uma crise de malária forte, é um verdadeiro destroço humano. Nada numa poça de suor, anda febril, não consegue mexer os braços nem as pernas. Tudo lhe dói, sente tonturas e náuseas. Quando se pega ao colo numa pessoa assim, tem-se a sensação de que ela não tem nem ossos nem músculos”.

Uma boa reportagem é como uma qualquer boa peça literária, é uma história bem contada, seja um golpe de Estado em Zanzibar, um golpe de Estado na Nigéria, a revelação das monstruosidades de Idi Amin, o ditador mais conhecido em toda a História da África Moderna e um dos mais execráveis do século XX em todo o mundo, ou um passeio num ambiente surrealista, nos arredores de Adis Adeba, para mostrar quilómetros e quilómetros de armamento assucatado enviado pelos soviéticos ao governo de Mengistu. É primoroso a descrever viagens, o à vontade com que fala do tempo, da fauna e da flora. O seu pendor didático é muitíssimo forte, veja-se o caso do genocídio do Ruanda, em que o leitor é investido na obrigação de compreender as castas ruandesas e o histórico de operações de tutsis sobre hutus, um leitor que acompanha estupefato um genocídio que era dado nas televisões mas ao qual a comunidade internacional voltou as costas. De igual modo, este mesmo leitor emerge no vórtice do conflito sudanês, de vez em quando mediático, aqueles campos de gente fugitiva entram-nos pelo ecrã do televisor à hora de jantar para desaparecerem rapidamente, temos uma vasta rotina de explosões na Síria, de atentados no Iraque, de lutas intestinas no Afeganistão, de sonhos expansionistas de Israel, de palestinianos em estado permanente de fúria, para darmos um papel especial a este drama aparentemente sem remédio que se vive no Sudão.

E há a Libéria, esse horror de racismo entre africanos, uns que vieram dos Estados Unidos da América e que se julgaram superiores a quem já lá estava, 1% a dominar 99%, um regime ditatorial demencial, houve finalmente um golpe, esse regime truculento parecia extirpado, pura ilusão. Somos confrontados com o drama dos tuaregues, inopinadamente chegamos aos tais quilómetros de material de guerra, é uma revelação brutal: “A vista deste lugar é única. Uma planície a perder de vista, sem uma única árvore até à linha do horizonte que aparece envolta numa nebulosidade ténue. Toda esta superfície está coberta com material de guerra. Quilómetros e quilómetros de material de campanha de diferente tipo, filas intermináveis de tanques médios e pesados, florestas de canhões antiaéreos e morteiros, centenas de carros blindados, de veículos camuflados, postos móveis de rádio e veículos anfíbios. E, do outro lado da colina, há gigantescos hangares e paióis. Aquilo que mais nos surpreende e perturba são as quantidades inimagináveis de material bélico, este amontoado incrível de centenas de milhares de metralhadoras, obuses e helicópteros de guerra. Todo este equipamento foi oferecido ao longo de muitos anos por Brejnev a Mengistu e enviado da União Soviética para a Etiópia. Mas na Etiópia não havia pessoas suficientes para utilizar nem sequer dez por cento destas armas. Estes tanques serviam para conquistar todo o continente africano”.

É uma reportagem que se pode encarar como um documento estarrecedor, que nos obriga a ir até à génese do colonialismo e percorrer todos estes teatros de loucura e terror onde se amordaça a esperança.

Leitura imperdível.


Ryszard Kapuscinski

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