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  • Beja Santos

O equilíbrio pelo terror nas vésperas da Queda do Muro de Berlim

Beja Santos: “A Casa da Rússia” apareceu em vários mercados livreiros por 1989, não descura minimamente a vontade de Gorbatchov restruturar um sistema que dava sinais alarmantes de anquilose, mas em nada se indiciava um fim para um certo tipo de Guerra Fria que fizera o seu aparecimento após uma II Guerra Mundial que consagrara um mundo liderado por duas superpotências, um mundo bipolar efémero, confirmado pelo desmoronamento da URSS e a emergência de novas potências, já de caráter globalizante.

“O espião que saiu do frio” é a obra-prima de um subgénero literário centrado numa Guerra Fria pautada pela ideologia do território, tendo por palco a fronteira de dois mundos, a Berlim partilhada. “A Casa da Rússia” é a outra obra-prima de John le Carré em que a ciência dos mísseis tem mais peso que qualquer levantamento ou contestação em Budapeste ou Praga. Agora, a Guerra Fria é a tentativa de superioridade indiscutível, a supremacia da velocidade dos mísseis. A Perestroika e a Glasnost, dito por um dos espiões deste romance, não passava, no mundo da espionagem e na visão gananciosa do complexo militar-industrial de espetacularidade política. Um espião perora assim: “Estamos nós metidos na maior querela ideológica de toda a história e você vem-me dizer que a Guerra Fria acabou, só porque uma mão-cheia de homens de Estado acha conveniente cumprimentar-se em público e desfazer-se de meia dúzia de brinquedos obsoletos. Ah, pois, diz-se que o império do mal está de rastos, não é? Que a economia deles está uma calamidade, que puseram a ideologia no prego, que os quintais deles lhes vão explodir na cara. Mas não me venham dizer que isso é uma razão para desativarmos as nossas armas, porque não acredito. É uma razão sim para os espiarmos bem espiados”. Mais adiante, num outro grupo de espiões disserta-se sobre o equilíbrio do terror, e alguém afirma que não há saída possível para a corrida dos armamentos: “O demónio não voltará ao seu frasco, a confrontação será para todo o sempre, o abraço estreita-se cada vez mais e de geração em geração os brinquedos vão-se tornando cada vez mais engenhosos e nenhum dos dois lados terá alguma vez segurança que baste. Estamos cansados de acreditar nisso, porque somos humanos. Podemos até cair na ilusão de que a ameaça acabou. Nunca acabará, nunca, nunca, nunca”. É com base nestes princípios que vamos ser confrontados com os meandros da espionagem do mundo ocidental, os Serviços Secretos Britânicos e os Norte-Americanos, a Casa da Rússia e a CIA.

John le Carré é detentor de uma máquina literária imbatível, maneja o enredo numa trama em espiral, o que parece insignificante, numa feira em Moscovo entrega-se a um vendedor britânico um documento destinado a outro vendedor, o recetor da documentação fica inquieto com o que consegue ler e entender, não encontra o destinatário, em turbilhão os acontecimentos fervilham, aquele manuscrito contém segredos militares que põem os serviços de espionagem, primeiro, e o sistema político, depois, em brasa, ou aqueles documentos são um embuste ou o destino da Guerra Fria irá por outro caminho. Enredo a que não faltará uma carga emocional devastadora envolvendo um físico soviético, uma bela jovem russa e um editor inglês que pressionado pelos Serviços Secretos entra na trama da espionagem. Em vertigem, o leitor desce aos labirintos de uma operação que tem como pontos de passagem Moscovo, Leningrado, Londres, Lisboa, uma esotérica reunião numa ilha da costa do Maine que pertence à CIA, e aquele editor, Barley Blair, que embarca na operação da espionagem, espartilhado por rígidos preceitos de forma a obter a certeza daqueles segredos e torná-los extremamente úteis para as potências ocidentais, decide à revelia das ordens recebidas ceder à vontade do seu coração.

John le Carré manipula a metáfora e os tempos do silêncio como mais ninguém. O físico soviético é um homem ainda inocente, julga que um livro seu denunciando a máquina emperrada soviética no equilíbrio de terror contribuirá para abrir o sistema político do país, e chegar-se à paz; a bela jovem russa amara na juventude este físico, tudo fará por ele, aceita piamente as suas convicções; Barley Blair é um joguete do destino, conhecera o físico numa feira do livro em Moscovo, o cientista acredita piamente que ele vai editar o livro em inglês, e assim se alargará a via para o desarmamento e para a paz à escala mundial. O labirinto da espionagem é o prato de substância, aqui avultam as desconfianças de que tudo pode ser uma fraude e até uma armadilha do KGB. A metáfora que o autor brandirá no termo da obra é a completa inocuidade de certas revelações, serão sempre anuladas pelo dogma do equilíbrio do terror e pela influência dos comerciantes das armas.

Barley Blair, outra metáfora, é uma carta fora do baralho, em nome de uma paixão pela jovem russa porá toda aquela operação em causa, desaparecerá do mapa, correrão muitos boatos sobre as prisões onde está detido, afinal ele vai ser encontrado em Lisboa, onde tem casa e onde está à espera ansiosamente da sua paixão que virá com a família quando os soviéticos autorizarem.

Dei conta que é a terceira vez que leio compulsivamente este thriller intemporal e já não tenho qualquer dúvida sobre a natureza da obra-prima. Deve-se a John le Carré a capacidade de ter erguido este subgénero literário às cumeadas da literatura intemporal. Todos os clássicos nos entretêm porque têm histórias bem contadas, sejam a Ilíada, o teatro de Racine ou o Primo Basílio. Estes espiões são talhados como homens que sonham a completude, vivem amores falhados, relações sem saída, não têm quaisquer ilusões que podem ser excluídos a qualquer momento ou promovidos por bons resultados operacionais. É a alegoria da Casa da Rússia como a organização a quem o Estado confia a segurança, sabendo sempre que tudo muda à menor alteração das estruturas do poder, de novas regras da geopolítica e da geoestratégia. Este clássico é muito mais do que uma história de espionagem, deixa bem claro que é a decisão individual que enquadra os movimentos coletivos.

Enfim, cumpre saudar esta nova edição de um clássico inequívoco.


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