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  • Beja Santos

Metáfora admirável e inspiradora, do melhor que Stephen King tem escrito


Mário Beja Santos: O título da obra é Elevação, o autor é Stephen King, equivocamente cotado e publicitado como mestre da literatura do horror e do terror, Bertrand Editora, 2020. Stephen King tem linhas dominantes na sua obra de ficção, uma delas passa por um ser humano ser sujeito a uma prova inusitada, a uma situação jamais considerada, e esse ser humano supera, sabe-se lá com que dureza da inesperada, um caso de ódio, de perseguição, de estado de abandono, sem contato com a civilização. E temos obras admiráveis que reportam essas situações extraordinárias, livros que correm o mundo inteiro como Misery, Insónia, O Jogo de Gerald ou Bem-vindos a Joyland.

Elevação é um texto todo ele metafórico, tome-se em conta o que se escreve na contracapa: “Castle Rock é uma pequena cidade, cenário de muitos livros de Stephen King, e as notícias correm depressa. É por isso que Scott Carey quer confiar o seu estranho segredo apenas ao Dr. Bob Ellis: anda a perder peso sem emagrecer, e a balança regista o mesmo peso independentemente da roupa que usa. Scott tem duas vizinhas que abriram um restaurante na cidade, mas a população não está convencida. Deirdre e Missy Donaldson formam um casal de lésbicas que não encaixa muito bem nas expetativas da comunidade. E agora Scott parece estar em guerra com elas, porque os cães do casal gostam de ir fazer as necessidades ao seu relvado. Scott começa a compreender a vida difícil das vizinhas e tenta ajudar. Enquanto a comunidade se une e se prepara para mais uma comemoração do Dia de Ação de Graças, são criadas alianças improváveis, mostrando que podemos encontrar uma base comum apesar das nossas diferenças tão enraizadas”.

Metáfora a que podia associar-se uma narrativa parabólica. Era uma vez um homem sozinho que vai contar ao médico amigo uma situação tida por insólita, perde peso na balança, mas o seu corpo está cada vez mais ágil, o médico propõe-lhe exames, examina-o, vê-o musculoso, insiste em pesá-lo, e então apercebe-se que está perante o impensável, quem o procurou pesa o mesmo na balança nu ou vestido, com pesos nas mãos e os bolsos cheios ou vazios; virá mais tarde a considerar que este homem era senciente, possuidor de um poder jamais conferido a um ser terreno. Este mesmo homem que perde peso e não o aparenta tem um contencioso com duas vizinhas, irá surgir crispação e afrontamento, ele tentará amenizar a relação indo com o médico ao restaurante do casal, a hostilidade não cessa, uma delas, uma verdadeira atleta, trato-o sempre com duas pedras na mão. O homem continua a perder peso, mas mantém-se tonificado. É nisto que há a habitual corrida anual, vai ocorrer o impensável, entre 800 concorrentes, com aquela mulher que é uma verdadeira competidora olímpica, o homem que aparenta corpulência e é barrigudo, vai ultrapassando diferentes grupos, está tudo arrelampado com a passada enérgica, lá vai ele quase sem esforço a trepar colinas íngremes, avizinha-se a meta, nisto a competidora destinada a vencer tropeça e espalha-se ao comprido, com a meta à vista, o homem estende-lhe a mão, levanta-a, ordena-lhe que vença, os meios de comunicação social registam aquele fenómeno insólito e a solidariedade, o homem podia ter ganho mas preferiu dar voz à galhardia desportiva. Antes, ele e a sua vizinha extremamente agressiva tinham feito uma aposta um tanto estrambótica que envolvia ele fazer uma refeição lá em casa, perdendo, ela preparando uma refeição no restaurante, se tivesse sido derrotada.

O jantar é uma metáfora dentro da parábola, desapareceu toda e qualquer hostilidade ali e lá fora, a comunidade de Castle Rock, que fora tão reticente com aquele casal de lésbicas, aparece em massa no restaurante, que tinha estado a viver tempos muito maus, sob o espetro da falência, eram raros os clientes, o preconceito era mais forte. Reforça-se este núcleo dura de amizades, médico e mulher, o casal das vizinhas, são eles os detentores desse fenómeno extraordinário e incompreensível que ultrapassa todos os limites da Ciência, os quatro prometem o completo silêncio sobre as alterações inacreditáveis que se estão a operar no organismo deste homem. O peso diminui, o homem precata-se, tem a noção precisa que irá desaparecer, lá em casa já flutua como um astronauta. E Stephen King oferece-nos páginas memoráveis de um quadro de levitação, alguém que se vai elevando, contrariando todas as regras da gravidade para os céus, preparou uma partida em beleza, enquanto começa a subir sentia-se absurdamente como a Mary Poppins sem o guarda-chuva. O homem eleva-se num caminho oposto ao Pentecostes, é ele que leva a língua de fogo, que reverte sobre aqueles quatro amigos que o olham a partir para o infinito, um final inspirador em que das metáforas se passa para a parábola de que só com amor caminhamos para a elevação:

“Um fogo-de-artifício brilhante explodiu acima deles: vermelhos, amarelos e verdes. Houve uma pausa, depois seguiu-se uma perfeita chuva de ouro, uma cascata cintilante que caiu e caiu, como se nunca fosse terminar.

Deirdre pegou na mão de Missy.

Dr. Bob pegou na mão de Myra.

Ficaram ali até as últimas faíscas de ouro se apagarem e a noite estar de novo escura. Algures acima deles, Scott Carey continuou a elevar-se, libertando-se do aperto mortal da Terra com o rosto voltado para as estrelas”.

Se o passado é a carpintaria da História, o futuro, por antonomásia, é sempre um mistério, tais e tantas são as incertezas que se deparam à nossa volta. Parábola: só o amor liberta.

Uma escrita admirável de Stephen King, que convém não ignorar.

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