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  • Beja Santos

Belíssimo romance sobre os demónios da sobrevivência, da culpa e do amor


Mário Beja Santos: O texto da contracapa contextualiza perfeitamente a atmosfera da trama, absorvente e compulsiva: “Prússia Oriental, outono de 1943. Hitler permanece largas temporadas num local designado por A Toca do Lobo, o seu quartel-general bem oculto na floresta. As perspetivas de vencer a guerra começam a esboroar-se e os seus inimigos irão aí procurar liquidá-lo, como acontecerá em julho de 1944.

São escolhidas dez mulheres para provar a comida de Hitler e protegê-lo de um envenenamento. Rosa Sauer, de 26 anos, perdeu tudo para esta guerra. Os pais morreram e o marido luta na frente russa. Sozinha e sem dinheiro, Rosa toma a decisão de deixar Berlim devastada pelos bombardeamentos para morar com os sogros no campo, perto da Toca do Lobo. Uma manhã, as SS vêm dizer-lhe que foi recrutada para ser uma das provadoras de Hitler: três vezes por dia, ela e nove outras mulheres são levadas para uma caserna, nas proximidades da residência de Hitler, para provar as refeições do Führer. Forçadas a comer o que pode matá-las, na atmosfera turva destes banquetes angustiantes, as provadoras e os militares das SS traçam alianças insólitas – mas o que é insólito quando se vive no limite? E na primavera de 1944 chega a este quartel-general de Hitler um tenente das SS e nasce um inesperado vínculo entre ele e Rosa”.

É um inesperado e bem-vindo grande romance, As Provadoras de Hitler, por Rosella Postorino, Publicações D. Quixote, 2020. Em dado momento é a própria protagonista quem categoriza esse tempo limite de desapegos, de esperas, de provações: “Vivíamos numa época amputada, que invertia todas as certezas, desagregava famílias, estropiava qualquer instinto de sobrevivência”. Uma das metáforas desta prosa magnífica é aquela comida inusitada, a especiosa alimentação de Hitler, um quase vegetariano que adorava doces, estas provadoras, sujeitas ao racionamento, vivem num clima de abundância e satisfação à mesa, em que há riscos de envenenamento, que com o tempo se esquecem, a sobrevivência está primeiro, todas aquelas dez mulheres vivem num círculo de fome e medo. Fome que se vence e medo que irá sempre prevalecer, as provadoras são mesmo cobaias, depois de deglutir as iguarias do senhor supremo do III Reich terão de permanecer na caserna sob observação durante uma hora. Fome e fartura, estômago deliciado, a angústia vem depois, mas também durante.

Outra metáfora sobreleva: nesse zénite da sobrevivência e dos riscos mortais diários, os seres humanos expõem-se como eram e pretendem ser, fazem amizades, geram cumplicidades, naquela caserna há nazis leais e muitos descrentes, já corre por ali um vento que anuncia que todas elas estão do lado errado da História, haverá um momento em que irá fechar a Toca do Lobo, os exércitos soviéticos aproximam-se, as populações põem-se em fuga, a poderosa construção oculta dos céus é dinamitada, onde viveu Hitler não pode haver lembrança.

O livro abre com uma citação de Bertolt Brecht, extraído de A Ópera dos Três Vinténs: “Neste mundo, o homem, para sobreviver, tem de suprimir a sua humanidade”. O que acontece é que as provadoras vão descobrir que há quem ali dentro tenha identidade escondida, aquelas refeições são uma sala de espelhos: as conversas recalcam a vida áspera, há os maridos ausentes, camuflam-se as vidas em exílio, sobrevive-se porque há esperança em reencontros, logo que aquela guerra acabe, acreditam. Rosa tem a sua história, é uma berlinense, fora secretária e conhecera o marido no emprego, Gregor, que queria ser bom alemão, alistara-se, estava lá muito longe, no gelo russo, as cartas demoram a chegar, o seu amor por ele está cada vez mais difuso, submetido a sentimentos contraditórios. Iremos saber todo o itinerário de Rosa até à sua chegada àquela quinta dos sogros, na Prússia Oriental. Assim se passam os dias, as semanas e os meses: “Passaram-se as semanas, e a suspeita em relação à comida diminuiu, como um galanteador a quem se vai dando cada vez mais confiança. Nós, servas, comíamos agora com avidez, mas, logo a seguir, o inchaço abdominal esmoreceu o entusiasmo, o peso no estômago pareceu um peso no coração e, por causa desse equívoco, a hora a seguir ao banquete encheu-se de desconforto”. Rosa cai na confiança do cozinheiro de Hitler, atreve-se a roubar garrafas de leite para dar a uma mãe, no círculo daquelas dez mulheres há invejas e ciúmes, Rosa será desmascarada e perderá tal benefício.

A guerra parece durar eternamente, as provadoras brigam, tecem comentários ácidos, uma delas apareceu grávida e foi forçada a fazer aborto. Surgem como em flashes recordações da vida berlinense, a chegada do nazismo, a fé de que todas as guerras seriam ganhas pois Hitler queria a paz, via-se forçado a escorraçar ou a perseguir os agressores, depois chegaram os bombardeamentos, Rosa já não tem família a não ser a do marido.

A relação com o tenente das SS marca a terceira metáfora desta esplêndida obra: não há interdição que não seja vencida, o temível tenente das SS afeiçoa-se a Rosa, nasce o romance, o nazi procurará a todo o transe que Rosa chegue sã e salva a Berlim. Rosa sabe que Gregor foi ferido.

O romance salta no tempo, vemos que Rosa chegara à estação de Hannover, vai visitar um moribundo, estamos em 1990. É Gregor, que ali vive com a sua segunda mulher. Não há ressentimentos, Rosa sabe como tudo se esvaiu: “A guerra tinha-me reenviado o corpo de um sobrevivente e eu era muito nova e enérgica para cuidar dele. Mas nunca mais nos tínhamos tocado com desejo, o desejo era um sentimento de que eu me tinha esquecido”.

E despedem-se: “Acaricio-lhe a face. Tem uma pele que parece papel de seda; áspera, ou talvez sejam os meus dedos. Eu nunca acariciara o meu marido em velha, não sabia como era. Passo dois dedos pelos seus lábios, carrego delicadamente, depois paro no meio e pressiono devagar, muito devagarinho. Gregor abre a boca, entreabre-a um pouco. E beija-os”. O passado é definitivamente passado, para trás fica a culpa, a vergonha, o remorso. Acreditem que é um belo romance.

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