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  • Beja Santos

Aventura e ação à volta do controlo da Internet por um grupo neofascista


Mário Beja Santos: Brad Thor é tratado como o mestre do suspense, autor de thrillers de alta voltagem, com histórias bem urdidas, sufocantes caçadas humanas e muitos cadáveres de gente malvada. Como é de todos sabido, as designações de suspense ou de thriller cada um tem a sua, não conheço boa (ou menos boa) literatura em que, no mínimo, haja o ingrediente de uma acalorada expetativa, num drama de amor, em toda a literatura dita de crime e mistério, as chamadas obras góticas do ti ou até numa narrativa hilariante. Leem-se obras de José Saramago, Lobo Antunes, Válter Hugo Mãe ou Mário de Carvalho, e por terem lavrado histórias bem contadas cavalgamos as páginas, num perfeito empolgamento. Posta esta consideração, o título “A Lista Negra”, por Brad Thor, Bertrand Editora, possui todos os ingredientes e mais algum para sermos levados a supor que a digitalização é um verdadeiro pau de dois bicos: dá-nos acesso à imensidão universal o escasso custo, mas guarda na sombra a possibilidade de poder a vir instituir a mais violenta das ditaduras. Não será por acaso que o autor refere um comentário do senador Frank Church, produzido em agosto de 1975, e que se prendia com a expansão dos serviços de informação norte-americanos, tendo dito explicitamente: “Se um ditador tomasse o poder neste país, a capacidade tecnológica que lhe é concedida pela comunidade dos serviços de informação permitir-lhe-ia impor uma tirania absoluta e não haveria maneira de ripostar, pois o esforço mais cuidadoso de associação como forma de resistência ao governo, por mais secreto que fosse, seria detetado”. O coração da trama deste romance, naturalmente carpinteirado com traições ao mais alto nível e empresas com sonhos delirantes de poder absoluto, tem a ver com a evolução da tecnologia digital. A má da fita chama-se ATS - Adaptative Technology Solutions, que se supunha ser um braço da National Security Agency; a empresa estava de tal modo ligada ao ADN político, militar e de informações norte-americano que em nada se distinguia do que eram os interesses da nação e os da empresa. O que se sabia sobre a empresa, selecionava criteriosamente quem contratavam, em nenhuma outra o processo de seleção era tão rigoroso. É na sua sede que o pérfido Craig Middleton está a organizar de modo satânico o processo da conquista do poder. Ao longo das páginas leem-se coisas aparentemente inconcebíveis, mas que correspondem à realidade, a IBM, através de um sistema de cartões perfurados, na década de 1930 em diante, ajudou o regime nazi em todas as fases de perseguição aos judeus e, por fim, ao genocídio. “Isso teve início com a triagem de dados de recenseamento para identificar judeus a fim de não lhes permitir o acesso a determinadas atividades e acabou por levar à identificação do local de residência de cada judeu e ao número de membros da família que vivia em cada casa, de modo a poderem ser despojados e forçados a seguir para os guetos”.

O poder desta ATS cresceu depois dos ataques do 11 de Setembro, montou-se uma vigilância exterior dos EUA e também para o interior. O pessoal da ATS entrou em edifícios de telecomunicações de todo o país e instalou secretamente dispositivos chamados divisores de feixe em todos os comutadores, de modo que as cópias de todas as comunicações por rede fixa, telemóvel, e-mail, mensagens de texto e Internet fossem enviadas para servidores altamente seguros e secretos localizados por todo o país”. Era o ponto de partida para que todas as pessoas passassem a ser alvos, pondo fim à privacidade. Em nome da segurança, a liberdade dos cidadãos ia sendo corrompida, dia e noite, 24 horas por dia. Persegue-se uma agente que antes de morrer envia uma pen a um agente leal, de nome Scot Harvath, o super-herói deste thriller e começa obrigatoriamente uma caçada ao homem, toda ela frustrada. A agente que o cérebro demoníaco da ATS perseguia, e daí a necessidade de capturar os segredos que ela obtivera, conseguira chegar ao âmago dos tenebrosos objetivos que já estavam em marcha. “Cada e-mail, toda a nossa atividade na Internet, a totalidade de cada conversa telefónica, cada conjunto de dados de GPS, todas as nossas interações nas redes sociais, cada transação com cartão de crédito, cada pormenor eletrónico sobre a nossa vida, quer queiramos ou não, é colocado num cofre de segurança sobre o qual não temos controlo. A qualquer momento, o governo pode abrir o cofre e vigiar-nos retroativamente”. O nosso super-herói não viaja sozinho, socorre-se de imensas ajudas, algumas delas mais do que bizarras como Nicholas, um anão que é o mais sagaz pirata informático ao cimo da terra, será ele alguém que irá descodificar os diferentes passos em que se organizou toda esta tramoia. Havia a rede Carlton, chefiada pelo agente Reed Carlton que a ATS pusera na lista negra, assassinou todos os seus agentes exceto o seu chefe que irá, depois de imensas e sanguinolentas peripécias, fazer dueto com Scot Harvath.

Manda a moral norte-americana que os crimes, seja qual for a quantidade de imundície que perpetuem, serão punidos, e manda a boa regra deste tipo de thriller que os criminosos sejam eliminados na undécima hora, às vezes depois, neste caso as figuras supremas do golpismo irão desaparecer num simulado desastre aéreo. Tudo somado e multiplicado, como manda a norma, temos aqui uma leitura intensa e compulsiva, em que o leitor é forçado a questionar se esta ficção não se confunde com a realidade, o tenebroso é excitante, neste caso uma lista negra praticamente desconhecida dos congressistas, dos senadores, do presidente dos EUA e da sua equipa secreta de assessores, lista de gente que tem de ser assassinada, pois pode prejudicar ou tentar impedir de qualquer modo a ascensão ao poder absoluto do grupo da ATS. Este infiltrou-se, como já se disse, nas entidades mais vanguardistas, até já domina o centro de espionagem da Agência Nacional de Segurança, controla as centrais energéticas, o centro de dados, as investigações sobre a internet do futuro. Há até uma história de amor, é toda a conveniência, entre as valas juncadas de agentes malignos mortos.

Brad Thor tem uma empresa que exporta conteúdos para todo o mundo, por isso agradece à magnífica rede de livreiros mundial que armazena, vende e recomenda os seus livros; agradece a quem lhe fornece ideias e inspiração e a uma equipa de especialistas. Escrever um thriller terrífico, pronto a abalar a condição humana, dá muito trabalho à rede empresarial que envolva qualquer mestre do suspense. O ideal é ficar a ilusão de que cada um destes senhores é um super-herói de si próprio, como manda a mitologia, desde os trabalhos de Hércules.

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