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  • Beja Santos

A tragicomédia de muita pseudociência


Beja Santos: “Quando a terra era plana e outras teorias científicas que estavam erradas”, por Graeme Donald, Círculo de Leitores, 2019, é um rigoroso comprovativo de que a ciência muitas vezes tem andado longe da verdade, chegando a provocar sofrimentos inenarráveis. Uma coisa é a ignorância pura, como a teoria desenvolvida pelos antigos gregos de que o corpo era constituído por humores, ideia que imperou até ao avanço da medicina científica no século XIX; outra coisa foi a doutrinação da superação racial que nos deu Hitler e justificou várias tentativas de genocídio. O importante trabalho “Quando a terra era plana” releva claramente que o ser humano tem estado à mercê da ciência, mesmo quando esta não passa de fancaria ou fantasia. A frenologia, está hoje comprovado, foi mais do que uma frivolidade científica. Um médico alemão, Franz Gall, desenvolveu a teoria de que o cérebro humano era composto por 27 zonas distintas, constituindo cada uma um órgão separado e autónomo. A doutrina ganhou popularidade e está na base de um genocídio inesquecível. Como escreve o autor, a Bélgica sucumbiu à mania da frenologia, tinha um defensor acérrimo, Paul Bouts, um padre falecido em 1990. Bouts visitou uma série de instituições belgas, mediu a cabeça dos prisioneiros com a ajuda de instrumentos que ele próprio concebeu, e pontificava sobre quem é que era normal ou não. Para tornar tudo pior, conotações raciais passaram a insinuar-se quando os dispositivos de Bouts foram usados pelo Serviço Colonial Belga no Ruanda, para decidir questões de superioridade racial. Depois de apertar meia dúzia de cabeças com os seus calibres encomendados por correio, o serviço declarou que os Tutsis eram racialmente superiores aos Hutus e tratou-os em conformidade, colocando uns acima dos outros, tudo acabou no genocídio de 1994, em que se estima que extremistas Hutus terão matado quinhentos mil a um milhão de Tutsis e Hutus moderados.

O leitor ficará surpreendido ou não com as promessas alquímicas, com as doutrinas de que a histeria era um exclusivo das mulheres que podia ser aliviada por estimulação genital, acreditava-se na capacidade de o tabaco tratar uma série de problemas de saúde, fez moda, muito antes do Viagra, a convicção de que injetar glândulas de macaco promovia o rejuvenescimento sexual. Sabe-se hoje que as doutrinas de Charles Darwin foram habilmente distorcidas para dar lugar a uma falsa ciência, a eugenia que abriu caminho ao eugenicídio, que ainda hoje alicia cérebros doentes que apostam em estabelecer regras para a perfeição humana.

No campo da geografia, importa não esquecer que houve a teoria da terra plana, como é evidente a ciência antiga dispunha de poucos elementos, o que deu origem a conceitos mirabolantes. A cosmologia hindu sugeria que a Terra era uma cúpula de fundo plano transportada às costas de quatro elefantes. Os Babilónios acreditavam na Terra plana, estavam convictos que o globo era um disco a flutuar no mar, rodeado de uma orla de montanhas que sustentavam os céus. E assim chegamos à Idade Média, chegara a hora da contestação. O explorador português Fernão de Magalhães antes de embarcar na sua célebre circunavegação de 1519, declarou: “A Igreja diz que a Terra é plana, mas eu vi a sua sombra na Lua, e eu acredito mais nessa sombra do que na Igreja”. Mas muitos dos fanáticos da teoria da Terra plana continuaram a agir, Hitler foi um deles.

Depois de ter tratado com detalhe o embuste das mensagens subliminares, o autor refere-nos o papel que a cocaína e a heroína tiveram não só nas indústrias farmacêuticas como no alto conceito dos poderosos. O Papa Leão XIII andava sempre acompanhado de um frasquinho de vinho com um cheirinho de cocaína, entenda-se que neste tempo o ópio e a cocaína eram tidos por trazer grandes benefícios para a humanidade em geral. Freud defendia que a cocaína era ideal para tratar a dependência do ópio e do álcool e como estimulador de apetite para anoréticos e também como tratamento de primeira linha para asmáticos. A rainha Vitória, seguindo os conselhos do médico, deglutia láudano, um extrato de ópio; tomava canábis para as dores menstruais; e à semelhança do seu primeiro-ministro, William Gladstone, também apreciava uma snifadela ocasional de cocaína. Diga-se de passagem que as indústrias farmacêuticas continuam a fazer o possível e o impossível para sensibilizar as autoridades e os médicos para a importância dos opiáceos.

O rol de crendices e de fantasias apodadas de científicas é interminável: na paleontologia, na microbiologia, nas doutrinas da evolução, nos mitos do canibalismo, na transmissão das pestes, na hereditariedade, a Terra como um recipiente oco, na existência de uma energia vital nos animais que pode ser influenciada por forças magnéticas externas. O autor conclui a sua deambulação por todo este mundo de embustes falando na “teoria dos humores”, a ideia de que o corpo é composto por quatro fluidos principais: fleuma, bílis amarela, bílis negra e sangue. Atribuíam-se doenças e mal-estares ao desequilíbrio entre estes quatro humores. E o autor escreve: “Os médicos acreditavam conseguir ler o complexo equilíbrio dos quatro humores no rosto do indivíduo. O comércio dos cosméticos conheceu um grande impulso, em parte devido à teoria dos humores, dado que tanto homens como mulheres procuravam apresentar-se com um rosto que anunciasse coisas boas. Os alimentos eram classificados de acordo com o efeito que produziam nos humores”. E mais adiante: “A sangria humoral com vista a melhorar as perspetivas de uma pessoa era tão popular que os barbeiros podiam ajudar os doentes a libertarem-se de meio litro ou de um litro. No século XIV, foi constituída a Venerável Sociedade de Barbeiros e Cirurgiões para permitir que os barbeiros pudessem ajudar os monges que na altura eram os profissionais de medicina oficiais, mas que haviam sido interditos de derramar sangue por decreto papal”.

De leitura compulsiva, o autor promove a jocosidade e o divertimento nesta história dos enganos, trapaças e conceitos científicos que se vieram a demonstrar como obsoletos e até responsáveis por doutrinas de fanatismo e ódio. Eram teorias erradas e nós devemos conhecê-las, pois vivemos cercados por novos fanáticos e embusteiros.

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