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  • Beja Santos

A praga das doutrinas iliberais e como pretendem minar a democracia


Beja Santos: A escritora, professora e jornalista Anne Applebaum está muito bem posicionada para argumentar e desvelar os sistemas políticos baseados no fanatismo populista, nacionalista, xenófobo, aptos para envenenar a opinião pública com teorias da conspiração, popularizar os eleitores, encher as redes sociais com acusações que os sistemas parlamentares são podres e corruptos, é preciso regressar à regeneração e à autoridade. Daí a onda de exemplos que ela utiliza, desde a Polónia e a Hungria, a ascensão de partidos em Espanha, a direita radical em França e nos Países Baixos, as maquinações da não-verdade que podemos encontrar nos procedimentos de Boris Johnson ou Donald Trump. A leitura de O Crespúsculo da Democracia, O fracasso da política e o apelo sedutor do autoritarismo, Bertrand Editora, 2020, é uma obrigação cívica. A autora percorreu ambientes onde viu gente que se bateu pela democracia ou que se enalteceu com os ideais democráticos e que agora sucumbem a mentirosos, rufias e aldrabões. E também está muito bem posicionada porque não nos esconde que é muito clara quando se diz situada na Direita Liberal e nos alerta para as técnicas utilizadas por estas crenças radicalmente simples em que se inventam inimigos, imigrantes, conspiradores, políticos corruptos, ameaças à identidade nacional, e muito mais. A autora viveu largos anos na Polónia, pôde verificar como os liberais polacos eram favoráveis ao Estado de direito, a fazer parte integrante de uma Europa moderna, ao parlamentarismo, ao sistema de pesos e contrapesos nos Órgãos de Soberania. Em só duas décadas tudo mudou, de modo larvar os líderes do partido Lei e Justiça vieram a revelar-se autoritários, asfixiando a imprensa livre, controlando o Tribunal Constitucional e o Supremo Tribunal (há mesmo uma lei destinada a punir os juízes cujos vereditos se oponham à política do Governo); deu-se uma furiosa substituição de funcionários públicos que foram substituídos por seguidos do partido, foram despedidos diplomatas, destruídas instituições culturais, a reconciliação entre polacos e judeus passou discretamente para o limbo, a Igreja Católica embarcou na nova crença, é o aborto, a eutanásia e os homossexuais estão sempre na berlinda. Como todos os populistas que atacam a corrupção, entregam os negócios à clique apoiante, são descaradamente corruptos. A autora discreteia sobre os demagogos e os autoritários, invoca especialistas como Hannah Arendt ou Karen Stenner e observa: “Os teóricos costumam deixar de fora um outro elemento crucial para o declínio da democracia e para a construção da autocracia. A mera existência de pessoas que admiram demagogos ou que se sentem mais confortáveis em regimes ditatoriais não explica por inteiro o porquê de os demagogos vencerem. Nenhum autoritário contemporâneo pode ser bem-sucedido sem escritores, intelectuais, panfletistas, bloguistas, assessores de imprensa, produtores de programas televisivos e criadores de memes que consigam vender a sua imagem ao público. Mas também precisam de pessoas que conseguem utilizar linguagem legal sofisticada, pessoas que conseguem defender o violar da constituição ou o distorcer da lei. Precisam de pessoas que poderão dar voz aos rancores, manipular o descontentamento…”. E, mais adiante: “A Nova Direita não quer de nenhuma maneira conservar ou preservar o que existe, despreza a democracia cristã, quer romper com o conservadorismo, é composta por homens e mulheres que querem derrubar, conturbar ou minar as instituições atuais”.

E lança-se ao trabalho de nos explicar como é que os demagogos vencem, inventando conspirações, se necessário atribuem altos cargos a antigos comunistas, rodeiam-se de empresários que são apoiantes da firmeza e da docilidade sindical, maquinam sistemas de mentiras, na Hungria o bombo de festa são os migrantes muçulmanos (inexistentes), a União Europeia e George Soros, ele fundara a Universidade Centro-Europeia, que foi proibida, a imprensa fala nos mercenários de Soros, nos traidores, dizem mesmo que o Soros é o patrão do partido democrático norte-americano. A Academia das Ciências da Hungria está sob controlo governamental direto de Viktor Orbán, os académicos vivem aterrorizados. É mesmo a imprensa conservadora ou liberal europeia, caso do Financial Times que denunciam a corrupção da camarilha de Orbán, todos eles beneficiam subsídios europeus e truques de magia legislativa.

Mas como é que isto tudo começou e se difundiu, não há uma resposta unívoca. Por exemplo, não existiu qualquer onda autoritária-nacionalista e antidemocrática depois de 1989 na Europa Central, com exceção da ex-Jugoslávia, resulta de ações específicas de pessoas que não gostavam das democracias existentes. Veja-se a complexidade grega, viveu uma guerra civil, depois um governo musculado, já teve uma junta militar, seguiram-se governos conservadores, sociais-democratas e até de esquerda, agora governam liberais. Dentro dos países, há quem não viva satisfeito com a democracia por esta respeitar especificidades. E a autora é demolidora com o currículo de Boris Johnson, trata-o por mentiroso brincalhão que treme agora porque não vê saída de qualquer espécie para a tal independência ou autonomia fora da União Europeia. Por puro oportunismo, a política externa britânica assobia para o lado diante histórias de autoritarismo de gente que faz formalmente parte do mesmo clube, o dos conservadores. O Reino Unido não parece, mas é um barril de pólvora.

Estamos diante de uma obra em que se estudam as falsidades nas redes sociais, como esta Direita radical se serve da ironia, da paródia e dos memes cínicos. Não deixa de ser severa a autora com os poderes constituídos que se julgam destinados à eternidade: “As instituições democráticas modernas, construídas para uma era com tecnologias de informação muito diferentes, proporcionam muito pouco conforto àqueles que se sentem irritados com a dissonância. As eleições, as campanhas, a formação de coligações – tudo isto parece retrógrado num mundo onde as coisas acontecem tão depressa (…) O som estridente da política moderna; a raiva na televisão por cabo e nos noticiários da noite; o ritmo rápido das redes sociais e os títulos das notícias que entram em conflito uns com os outros quando por eles navegamos; a lentidão, por outro lado, da burocracia e dos tribunais – tudo isto tem enervado aquela parte da população que prefere a unidade e a homogeneidade. A própria democracia tem sido, desde sempre, ruidosa e tumultuosa, mas, quando as suas regras são seguidas, acaba por criar consensos. Os debates atuais, porém, não o fazem. Em vez disso, inspiram algumas pessoas a silenciarem pela força as restantes”.

Ficamos a saber de onde vem a força do Vox e como tem audiência em Espanha, como Trump e a sua clique apoiante se socorreram de apoios destes fanáticos, aplaudindo-os mesmo. E termina recordando-nos que não há nenhuma solução definitiva, não existe nenhum mapa para uma sociedade melhor, tudo o que pudemos fazer é evitar as tentações das diferentes formas de autoritarismo, esta procura de separar as pessoas em fações antagónicas, recuperar o sentido da democracia e lutar ao lado de democratas contra as mentiras e os mentirosos, repensando a configuração que a democracia deverá ter numa era digital.

Leitura imperdível.

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