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  • Beja Santos

A notável evolução que permite aos doentes crónicos ganhar saúde


Mário Beja Santos: A doença crónica tem números desconhecidos, cada qual lança dados que ninguém pode qualificar nem quantificar. Há quem estime em dois milhões só em Portugal, mas sabendo-se que o número de doentes crónicos tende a crescer, maioritariamente devido ao envelhecimento alvo de maiores cuidados, é indispensável, sob pena de se conduzir o Serviço Nacional de Saúde para a insustentabilidade e a uma forma de implosão, refletirmos acerca da responsabilidade do Estado e dos doentes no contexto da promoção para a Saúde e na prevenção da doença.

Ser doente crónico tem que contar com exames médicos e o recurso crescente a meios auxiliares de diagnóstico, alterações terapêuticas, vigilância nos autocuidados e na literacia em Saúde, sobretudo. Portador de cancro ou de esclerose múltipla, de artrite reumatoide, de diabetes, de problemas respiratórios graves, de afeções cardiovasculares, de perturbações do foro mental, de autismo e muitas centenas de outras doenças tem que saber contar com essa forma de viver, aprender a enfrentar as dificuldades e os fracassos. Enfrentar a sua doença, com maleabilidade, com espírito de adaptação, gozando ou não de um bom contexto familiar, o doente tem tudo a ganhar em assumir ser um ator do seu próprio desenvolvimento. Hoje tem a vida facilitada, por múltiplos fatores, um deles, o paradigma digital, pode proporcionar-lhe recursos como seja a telemedicina, a marcação de consultas, atenda-se aos dispositivos de alerta no campo das afeções cardiovasculares ou da diabetes.

A responsabilidade do Estado é a de procurar assegurar ao doente crónico os instrumentos para o bem-estar, desde o recurso ao meio hospitalar, passando pela acessibilidade ao médico da especialidade e acessibilidade com preços compatíveis aos medicamentos indispensáveis. A responsabilidade do doente assume várias facetas: atribuir um significado aos desafios que apoiem a doença, procurar reconstituir a identidade, dispor de um sentimento de autoeficácia, partilhar com outros doentes a sua experiência, aprender a enfrentar e controlar o stress, saber montar uma atmosfera onde possa suportar o cansaço, a depressão, os desapontamentos, aprender a falar sobre a própria doença, a confiar nos profissionais de Saúde, a fazer uso de grupos de apoio e de autoajuda.

O Estado descobriu que não tem capacidade para cuidar dos doentes entregues a si próprios, uma descoberta que levou a ter que obter uma resposta: em nome da dignidade do doente e da sustentabilidade do Sistema de Saúde, o doente crónico precisa de se desenvolver numa atmosfera de autocuidados, de partilha de informações e de um regular controlo de doença acompanhado por um profissional de saúde. É aqui que aparecem as novas formas de partilha e contratualização do Estado usando os espaços das farmácias para que aqui, com regularidade e com confiança do doente crónico, se acompanhe as terapêuticas, o uso de medicamentos novos e se informe por via digital o médico de família ou o Centro de Saúde. Temos hoje um vasto conjunto de experiências europeias já avaliadas, desde a asma ao universo das doenças cardiovasculares que permite concluir que vivemos um tempo em que o doente crónico, cada vez mais conhecedor da sua doença, informado das terapêuticas, monitorizado entre a farmácia e o médico de família, está a viver em melhores condições, com a medicação adequada, e assim se evitam o entupimento das urgências, operações e internamentos hospitalares, dando mais vida aos anos.

Dá que pensar o alheamento em que vivemos sobre os novos caminhos que se abrem à gestão da doença crónica e ao bem-estar do doente que se desbarata nessa inércia.

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