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  • Beja Santos

A farmácia do futuro: gerir doentes mais capacitados para a adesão terapêutica


Mário Beja Santos: A primeira grande mudança, no mundo contemporâneo, na visão do papel do farmacêutico ocorreu com o aparecimento da farmácia clínica como resposta ao reconhecimento dos riscos decorrentes da toma de medicamentos – cada vez mais ativos, estes medicamentos passaram a exigir conhecimentos aprofundados acerca dos efeitos secundários, interações ou toxicidades dos medicamentos. Foi a primeira etapa, na década de 1960, para a formação de farmacêuticos como especialistas do medicamento. Este profissional de saúde tornou-se capaz de avaliar a terapêutica que o doente está a fazer, e sempre que identifique eventuais interações ou entra em contato com o médico ou recomenda ao doente que se dirija prontamente aos centros de saúde.

Consolidado este conceito de farmácia clínica, as farmácias de oficina passaram a ser encaradas como espaços de informação e formação para a Saúde, motores da hoje tão propalada Literacia em Saúde. Num quadro de exigência profissional, e no afã de ir ao encontro dos doentes mais motivados para os autocuidados, aprofundou-se um processo inovador dos cuidados farmacêuticos, e daí termos visto um número significativo de farmácias nos últimos anos que implementaram cuidados farmacêuticos numa ótica de responsabilização do doente. Resultados? Fortes ganhos em saúde graças à adesão terapêutica.

Nas transformações operadas nos últimos anos, diferentes Estados-Membros, obrigados a aligeirar despesas com inúteis hospitalizações e com as urgências quase confundidas com centros de saúde, têm procurado novas fórmulas concretas na adesão terapêutica. Daí vermos serviços nas farmácias onde já se ensaia a delegação parcial da administração terapêutica oral em oncologia e doenças transmissíveis. Há já quem encare estas experiências de adesão terapêutica como uma das melhores soluções para a contenção de gastos que decorrem de admissões hospitalares por reações adversas aos medicamentos.

Esta contratualização de serviços está longe de ser uma inspiração súbita, a própria Comissão Europeia incita projetos tendentes a aumentar a adesão dos doentes às suas terapêuticas, sobretudo em doenças onde os utentes estão a iniciar medicação crónica, casos da asma, diabetes tipo 2, hipertensão, terapia antiplaquetária, entre outras, isto no Serviço Nacional de Saúde britânico; na Bélgica, há um programa de seguimento de doentes crónicos dirigido a asmáticos que iniciam o uso de inaladores – a intervenção da farmácia consiste na informação sobre asma, correta utilização de medicamentos e ensino da técnica de utilização do inalador. E podíamos falar de outras experiências noutros países, isto só para sublinhar que é totalmente incompreensível manter-se o subaproveitamento dos farmacêuticos quando hoje já se sabe, por estudos independentes, que esta adesão à terapêutica reduz de forma impressionante os problemas de saúde dos doentes, reduz as visitas aos serviços de urgência e as hospitalizações.

Neste período crucial de pandemia, em que se reforça o SNS, dando-lhe mais meios e instrumentos, era tempo de dar mais relevo ao técnico do medicamento. Todos teríamos a ganhar se as estratégias de descompressão das unidades de cuidados de Saúde tivessem em conta o que se pode ganhar com a contratualização de determinados serviços às farmácias. Soou a hora dos economistas da Saúde fazerem contas para que as decisões políticas tragam benefícios aos doentes crónicos graças a novos e estimulantes serviços nas farmácias.

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