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  • Beja Santos

A Confraria dos Espectros: Uma imprevista obra-prima da literatura portuguesa


Mário Beja Santos

João Carlos Alvim é um nome com pergaminhos no mundo editorial e um excelente tradutor. Surpreende-nos pelo inspirador, requintado e metafórico seu primeiro romance A Confraria dos Espectros, A Esfera dos Livros, 2019. É uma arquitetura literária para onde afluem os meandros enciclopédicos de um Umberto Eco, os romances de aventuras de Alexandre Dumas, Ponson du Terrail e Fernando Campos, são reminiscências que ocorrem, nada subtrai à originalidade da obra que roda à volta de um eixo de elevada carga voltaica: os acontecimentos em que enrodilha qualquer fim de um Antigo Regime, as atitudes reativas, as vindictas, a nostalgia autocrática, o fanatismo religioso, a troca das elites e o revolteio dos novos valores que calcam os que ficam derrotados. O Antigo Regime é personificado pelo rei D. Miguel, por um frade que tem por missão preparar um noviço que parte para Paris no exato momento em que os liberais assomam Lisboa no sentido de se enlear num grupo conspirativo que pretende a retoma dos princípios absolutistas, na política e na religião. O dispositivo oficinal de João Carlos Alvim conta com vários saltos no tempo, tudo se inicia em novembro de 1910, em Brooklyn, mergulhamos depois no estertor do absolutismo, chegamos a Paris, o noviço está a salvo, irá cumprir a sua missão, D. Miguel parte para o exílio.

E depois Paris, não acredito que exista na literatura portuguesa uma outra obra que recrie o universo de uma cidade que viveu o Terror, os Impérios, os palácios e as alfurjas, os templos e as tabernas, e uma atmosfera conspirativa onde irá despontar a caça ao Delfim, filho de Maria Antonieta e Luís XVI, que se imaginava ter fugido aos carrascos, em 1794, e chega informação de que vivia em Portugal num lugarejo de Terras do Douro, habita num ermo e afeiçoou-se a Briolanja, uma mulher possuidora de dotes demiúrgicos, um tanto aparentada com a Blimunda de José Saramago. Tornamos a Brooklyn, onde o herdeiro do fundador da agência de detetives Pinkerton, Joseph, já nas vascas da agonia, transmite a um jornalista a história da Confraria dos Espetros. Os intervenientes na obra são de um número impressionante, o noviço que conseguiu partir para Paris é já o Padre Luís de Almeida Murta, é um nostálgico absolutista, Frei José, seu padrinho, e que o lançou para altos voos conspirativos, visita-o e traça as linhas gerais do que será o seu trabalho. Em sincronia, há esse estranhíssimo Barão de Richmont, o alegado Delfim, a viver em S. João do Campo e a enfeitiçar-se por Briolanja. Avulta o desprezo e o temor dos conspiradores absolutistas pelos vencedores do liberalismo, onde não falta a alta finança judaica. O pensamento dos conspiradores está longe de ser coeso. O Padre Luís “sentia que a única ação verdadeiramente útil e decisiva, numa Europa sujeita à influência das seitas, da irreligiosidade e do dinheiro, era a luta em prol do poderio temporal de Roma, a defesa dos Estados Pontifícios, que formavam o território seguro a partir do qual poderia talvez iniciar-se a reconquista cristã”. Mas ele sentia-se hesitante com as novas alianças. O reitor de um seminário com quem ele se vai encontrar dar-lhe-á conta que nada será como dantes:

“Fui habituado a pensar que os católicos são um povo à parte, o povo de Deus por antonomásia. Um bloco, uma comunidade única, sem discrepâncias nem fissuras. Mas não é verdade, os últimos anos têm demonstrado que não é verdade. A Igreja está repleta de opiniões diferentes, de opiniões que não divergem só entre si, como veementemente se combatem. De modo que temos de abdicar, por mais que isso nos custe, da ideia de unanimidade”. E aconselha o Padre Luís Murta a fazer o que tem a fazer. “Com alguns católicos fiéis, se possível, com hereges e gente sem fé, se tiver de ser. O importante é que todos sejam gente de bem, e todos lutem em prol do bem da Igreja e, se isso não puder ser, em prol do bem de uma Humanidade que um dia venha a reconhecer Deus e a respeitá-lo”.

Há crime e mistério, dentro e fora daquele movimento que irá dar origem a uma confraria que tem uma missão muito especial. Quando avançamos para o desfecho desta magnífica obra e se desvela o que a mesma pretende, o pretexto será uma conversa com o futuro rei da Baviera, Maximiliano II, tudo se começa a tornar mais claro, é preciso acabar com uma paz feita de transigências e infâmias, importa que a Baviera restaure os direitos do Império. “Essa nova Baviera é hoje ainda mais necessária do que no tempo de Avignon, aquilo de que carecemos é de opor a um poder espiritual tentado por mil reformas e por alianças espúrias com as autoridades nacionais um partido guelfo formado por um Papado reconduzido à sua missão original de fazer muita Cristandade e pelos povos que, em toda a parte, gemem sob o ferro dos liberais”. Estamos a chegar a meados do século XIX, haverá levantamentos populares, 1848 é um momento de pânico para a velha ordem, os personagens que desfilaram pela obra vão desaparecendo, a carga mítica não sai da cena, o tal Delfim perseguido desfaz-se da consagrada Espada de Batraz, simbolicamente é um mundo que se afunda em definitivo num rio português, perto do rio Cávado.

E voltamos ao território norte-americano, mais enredos envolvem a Europa e a confraria, ficamos a saber que Joe Pinkerton está ciente de tudo quanto aconteceu na vida atribulada da Confraria dos Espectros, ele dá esta entrevista para que o mundo saiba a verdade.

Presume-se que haverá leitores que se sentirão confusos com esta tessitura de intrigas em salões e albergarias de má nota, é um português riquíssimo, turbilhonante, que obriga à leitura cuidada e ao registo dos saltos no tempo e nos lugares. Há a melancolia, primorosamente descrita, de um mundo agonizante e o que está em fase de nascença parece desobedecer a valores seculares da ordem, da autoridade incontestável, nunca, depois da Reforma, os valores religiosos foram tão confrontados. Ainda não emergiu a classe operária, este romance histórico não é da luta de classes, é a passagem para um mundo fantasmático do absolutismo, do temporal e do religioso, para os princípios de um liberalismo com todos os ingredientes que desembocaram na Europa industrial. Foi nesse mundo cavernoso e pujante de tensões que assomou uma Confraria dos Espetros que não hesitou, para alcançar os seus intentos, à prática de crimes inomináveis. E daí a carga simbólica que nos pode ajudar a refletir sobre o tempo que vivemos.

Leitura imperdível.

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