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Mundo LGBTI+

Sexo - Maturidade - Solidão

Três gays em três momentos distintos da vida. Como é a vida destas pessoas? Se tu és gay, em que ponto da linha da vida tu estás?

 

1. Como você se descobriu gay?

Nuno (luso-brasileiro):

Eu sempre vi as meninas como amigas; e os homens de uma forma “diferente”. Depois tive as primeiras experiências de toque numa mulher porque a sociedade me exigiu, e cedo! Não achei grande coisa! Conheci pelo meu irmão o chat da teletexto onde constavam anúncios sugestivos! Experimentei e foi maravilhoso!
Aí sim! Masturbava com a experiência do acto... O amolar da próstata. Todos deviam estimular... A internet apresentou-me a pornografia gay mas aí eu já sabia quem eu era.

Marcelo (brasileiro):

Eu lutei contra a minha sexualidade mais de metade da minha vida. Na verdade, as pessoas descobriram que eu era gay antes de mim mesmo. Eu tinha sempre os pesados olhos da minha família sobre mim. Eles sabiam e me condenavam.
Nesta negação, eu me refugiei em uma igreja evangélica. Com tanto ardor e devoção na minha luta contra o pecado, busquei ser o melhor que eu pudesse. Missionário, teólogo e finalmente Pastor Batista. Me casei. Tive três filhos. Nunca fui feliz.
Aos 33 anos, com um casamento em frangalhos e já sem fé, abandonei a igreja e fui morar na China. Ao voltar ao Brasil eu já havia decidido que iria me dar o direito de estar com uma pessoa do mesmo sexo. Foi minha primeira vez. Depois disto, nunca mais fiquei com mulher.

Antonio (português):

Descobri que era gay aos 16 anos, mas não havia essa palavra. As que haviam, eram insultuosas. Tinha uma paixão por um amigo meu e ele por mim. Tinhamos consciência desse sentimento mas não nos importava. Andávamos sempre juntos. Nem sei se os outros percebiam. O mais que fazíamos era masturbação. Só mais tarde aos 18 anos é que na cidade de Lisboa num colégio religioso e na Universidade é que comecei a ter vida sexual livre com vários homens e algumas poucas mulheres. Gostava muito e era não domesticável, também porque tinha facilidade em encontrar parceiros desde estudantes a homens adultos.

2. Como você exerce a sua sexualidade nos dias de hoje?

Nuno:

Eu sou de relacionamentos! Sou das pessoas e por elas me apaixono; agora tenho uma parceiro maravilhoso! Somos versáteis. Tão bom quando você já se sente a intimidade de fazer loucuras.
Me ajuda nas finanças o fato de que vendo cuecas usadas na internet. Sim, há um bom mercado. Pessoas compram. E meu namorado não vê problemas. Ele até acha engraçado que alguém compre! Ele é um bom economista.

Marcelo

Aos 34 anos eu vivi minha adolescência. Ia a todas as baladas, subia nos ‘queijinhos’, namorei e transei muito. Mesmo. Recuperei parte dos anos perdidos. Eu era bonito e tinha toda a atenção dos rapazes que eu precisava. Hoje eu sou muito mais seletivo (e menos atraente), também não tenho mais aquele tesão todo. Morei com dois rapazes (não ao mesmo tempo). Com um deles, fiquei 7 anos. Eu tinha certeza absoluta que seria para sempre - não foi. Mas ok.
Nâo tenho paciência para baladas, não tenho paciência para paquerar... simplesmente sou uma pessoa que está a envelhecer sem paciência alguma para com o ser humano. Se eu transo? Claro que sim. Menos vezes, mas muito melhor que antes.

Antonio

Hoje estou muito mais velho, mas mantenho vida sexual porque sou assediado por sites onde se podem encontrar homens de todas as idades. Tenho casa própria o que julgo que facilita, mas não frequento saunas porque sou as vezes reconhecido pela profissão que exerço. Os portugueses são mais complicados, menos assumidos.. os brasileiros mais livres, mais ligeiros e disponíveis. Alguns desejosos de possuírem ter um homem que os possam ajudar - um daddy. Alguns se tornam meus amigos.

3. Você pensa no futuro? Há receios ou temores?

Nuno

O futuro que me assusta é o político. Não aceite nada sem questionar, nos falta espírito crítico!
Outro sentimento que vejo sendo crescente na Comunidade é a crítica entre membros. Usamos adjetivos de forma pesada, para diminuir alguém... “O gordo”. Que tal substituir gordo por bear? “Nomenclentem”, os termos já existem, pesquise-os, use-os, seja educado! Assusta-me a falta de união e reconhecimento! Eu gosto dos “daddys”. Eu me lembro do sentimento protetor e sempre carinhos e atencioso que recebo deles. Agora, eles “ralham”com a minha falta de maturidade.
Sejam inclusivos! Todos somos diamantes e todos estamos a aprender a viver.

Marcelo

Penso muito no futuro. Ainda quero achar alguém para viver em família. Tipo... casa com cachorro, galinhas no quintal. Viagens ao redor do mundo e mais um ou dois filhos (agora, adotivos). Mas a cada ano que passa este pensamento se torna menos real. Sou professor e conferencista, então vejo palestrantes a trabalhar com o tema ‘homossexualidade e a terceira idade’ e, em suas pesquisas, 90% dos gays após os 60 anos vive em grande solidão. Tenho medo de pensar que dificilmente farei parte destes 10% de sortudos.

Antonio

Por causa da idade, claro que penso no futuro. Para muitos sou "bicha" velha, mas eu sinto-me "bicha" sem ser velha. Sei que corro o risco de de repente ficar sozinho, mas não me parece fácil nesta fase da vida encontrar alguém que queira mesmo partilhar vida comigo. Talvez com o tempo perca o fogo que tenho. Por ora não respondo por mim. Sou para muitos "venda a retalho ou avulso", mas alguns pensarão que sou "saldos em fim de estação". Mas isso não me faz parar, vou "marchando" na internet... Às vezes a solidão bate à porta, e tenho saudades dos meus amores perdidos no tempo... Decididamente não deveria ficar sozinho!