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Mundo das Mulheres Trans

Começo - Meio - Fim

Mulheres transexuais contam como foi o processo de descoberta e transição de gênero.

 

O Vidas Alternativas vai atrás de exemplos destas mulheres corajosas para entender como alguém ‘se descobre’ pertencendo a um gênero diferente do nascimento, as dores da transição e quais são seus sonhos.
No Brasil, que é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, se faz urgente que descubramos quem são estas mulheres e entendamos que elas estão aqui para ficar. Como nos disse o teólogo e psicoterapeuta Marcelo Pombo, colunista oficial desta página: “Ser transexual é ser transgressor. Transgredir no sentido original da palavra: ir além, atravessar, ultrapassar limites. Ir além das limitações impostas pela identidade de gênero designada em seu nascimento, ultrapassar os limites biológicos anatômicos e os religiosos”. E este processo não é nunca fácil, como ressalta a professora e psicóloga Luiza Dalla Costa, também nossa colunista: “É um grande desafio tornar-se mulher, abandonar este local de homem fornecido pela sociedade e entrar no processo de conhecer o que é ser mulher. É uma jornada longa que sempre exigirá que ela se reconheça e se fortaleça neste papel que é dela”.

Mas deixemos os profissionais de lado um pouco e vamos ouvir o que nos tem a dizer estas mulheres. Seus traumas, dores e sonhos.

Pauli, que ainda não iniciou o processo de transição. Ariane, que já está neste processo há um ano e a brilhante drag queen Selma Light, que enfrentou este processo em 2007.

Como você descobriu a transexualidade?

Pauli:
“Eu nunca gostei de performar como homem. Sempre senti vergonha do meu corpo e das roupas que usava. Quando comecei a usar roupas femininas no meu dia a dia, me senti incrivelmente bem.”

Ariana:
“Eu nasci numa cidade pequena do Ceará, familia pobre e país divorciados, eu cresci sem saber o que era o amor e por ser um garoto afeminado, eu era constantemente ridicularizado por familiares e na escola. Eu era insultado nas ruas e cheguei a ser apedrejado mais de uma vez... eu nunca entendi a razão desta rejeição e ódio. Fui uma vez estuprado por um destes meninos que me insultava. Eu me perguntava o que eu estava a fazer de errado. Eu só queria desaparecer.
Aos 14 anos fui estudar em um colegio interno, onde tive o primeiro contato com gays. Achei então que eu era gay e fiquei feliz e triste ao mesmo tempo. Triste porque eu era evangélico e segundo o meu Deus eu estaria condenado ao inferno. Lutei muito contra minha natureza, eu apenas queria ser hetero. Olhando para trás e percebendo tudo o que eu sofri, tenho orgulho de ter sido o menino gay que fui e de ser a mulher que sou hoje.”

Selma:
“Nunca me identifiquei com o universo masculino, lembro aos 4 anos de idade entrar em panico por descobrir que nao era uma menina. Passei a infância, adolescência e parte da vida adulta sofrendo por não entender oque sentia.
Apenas me senti livre e realizada depois de entender a minha condição de genero e assumir quem realmente sou.”

O que foi mais difícil no período da descoberta?

Pauli:
“Para mim, duas coisas são muito difíceis. A primeira, como moro ainda com meus pais, é ter que viver de aparências. É eu ter que colocar roupas que me fazem eu me sentir muito mal. É, sem dúvidas, eu ainda não poder começar a tomar hormônio por conta disso tudo. A segunda coisa, são as estatísticas. No país onde vivo uma trans vive uma média de APENAS 35 anos. Isso me assusta e torna minha descoberta rodeada de medo.”

Ariana:
“Antes de me entender como mulher, eu me casei com um rapaz que morava na Espanha. Eu trabalhava na Marinha e larguei tudo para ir atrás desta ventura. Casei-me e fui morar na Espanha. Não fui feliz. Eu não era igual aos outros gays que eu conhecia... não sabia o porquê... me afundei em festas, sexo e drogas. As drogas me davam uma sensação de feminilidade. Ao usar drogas eu deixava de reprimir-me, parecia que era minha libertação.
Mas chega uma hora que as drogas deixam de te dar prazer e eu passei a viver para me drogar. Deixava de comer e dormir. Minha vida era sexo e drogas. Comecei a me prostituir para as drogas. Tudo o que eu tinha era para elas.”

Selma:
“O mais difícil de se enfrentar são os preconceitos e o medo do futuro, pois para mulheres trans o mercado de trabalho é fechado no Brasil, e é o país que mais mata mulheres trans no mundo.
precisa-se ser muito forte e ter muita coragem para ser trans em um país assim, porém a vontade libertação é muito maior e faz com que se passe por cima de tudo para viver a plenitude de ser quem realmente se é.”

Como está o seu processo de transição?

Pauli:
“Meu processo de transição anda meio parado. Por enquanto, estou mudando aos poucos minhas roupas e me descobrindo mulher na questão do estilo. Pretendo começar a tomar hormônios (minha principal meta) e fazer todo o tratamento para transicionar, mas antes preciso sair de casa. Não é fácil fingir ser homem, , mas se tudo der certo, daqui a pouco saio de casa e começo o tratamento.”

Ariana:
“Acabei sendo internada e em dezembro de 2018, na clínica, descobri minha transexualidade. Eu não sabia nada sobre transgéneros e a equipe de psquiatras e psicólogos me ajudaram. Seis meses em terapia hormonal e eu coloquei minhas próteses - tenho peitos! Parece tudo muito rápido, mas não quero mais perder tempo. A vida é curta.
Depois de 1 ano em terapia hormonal, estou trabalhando de informática, tenho 1 ano 7 meses limpa das drogas e tenho planos de fazer outras cirugías e poder está mais segura de mim.”

Selma:
“Hoje já fiz meu processo de transição e me sinto realizada, foi um período longo e de muitas lutas e descobertas, a transição é algo muito íntimo e particular para cada pessoa, tive o melhor apoio que poderia ter que sempre foi o apoio da minha família.
A parte mais difícil foi por ser uma pessoa publica ser o tempo todo precisar em entrevistas ter que explicar todas as fases de descoberta que estava vivendo sem muitas vezes ainda não ter muita clareza de tudo. mas considero que foi a experiencia incrivel da minha existência na vida.”

O que espera do futuro?

Pauli:
“Eu quero poder me tornar uma mulher muito empoderada e independente. Quero realizar meus sonhos e ainda quebrar muitos tabus. Quero chegar a lugares que diriam que nunca chegaríamos e levar comigo outras trans. Quero poder ser referência e fazer outras acreditarem que sim, é possível chegar em qualquer lugar que você sonha. Quero acordar deste sonho e ver que sou mulher.”

Ariana:
“Hoje quero apenas estar bem. Talvez tudo o que eu tenha passado tenha me feito ser um tanto dramática, mas... essa sou eu. E tudo o que eu quero é ser feliz.”

Selma:
“Tudo o que espero do futuro são novas leis onde pessoas trans possam ter acesso a educação, saúde e mercado de trabalho.
Poder me sentir segura para seguir a vida como qualquer outro cidadão.”