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MIGUEL RODEIA

Jornalista

Fundador da Associação SER+

Fundador do Vidas Alternativas

Ex Produtor de Espetáculos

 

Lá vamos nós outra vez…

17/10/2020

De volta a mais restrições provocadas pela pandemia Covid-19.
Desta vez não há confinamento obrigatório, mas as restrições são mais do que muitas a transtornar os nossos dias.
Reforça também a cultura do medo, as pessoas estão assustadas e desconfiam de todos e qualquer um.
Aos mais vulneráveis melhor é o bom senso do recolhimento e o auto-confinamento. Sair apenas em caso de extrema necessidade.
A obrigatoriedade do uso da máscara quando há gente num raio de 2 metros causa desconforto. Máscara essa, que ao fim de duas horas está minada de bactérias e microrganismos que andam pelo ar e que nos expiramos. Fica húmida e todos onde esses ‘bichinhos’ gostam de estar.
Lavar e desinfectar aos mãos sempre que possível. O recurso ao gel deve ser evitado quando há possibilidade de lavar as mãos.
E não esquecer de desinfectar o telemóvel e as chaves do caro e de casa.
Etecetera.

As relações pessoais vêm-se assim mais uma vez privadas da proximidade, do afecto de um abraço, de um beijo.
As restrições nos estabelecimentos como restaurantes, cafés, bares reduzem a sua lotação e retira a hipótese de muita gente ter local de convívio. Ainda vão servindo a esplanadas, mas é apenas até vir o frio e a chuva.

Perante tudo isto a comunidade LGBTQI+ sente um pouco mais do que a generalidade das pessoas.
São especiais e mais sensíveis do que os outros, não.
Apenas muitas pessoas desta comunidade dependem dos espaços públicos para se encontrarem, conviverem e serem, o que não acontece com a grande da maioria.
Para os que possam isolar-se que se isolem e reduzem os seus contactos presenciais e saídas de casa.
A comunidade já sofreu bastante com o confinamento obrigatório do início do ano, pois os pontos de encontro e convívio estavam fechados. Houve mesmo quem entrasse em depressão e que decerto ainda não a ultrapassou.Para esses, vai ser um sacrifício acrescido.
Não esqueçam os mais frágeis, os que têm menos condições para enfrentar dificuldades.
Lembrem-se dos bares e restaurantes ‘gay friendly’, onde alguns estavam habituados a ir e que estão abertos e precisam de clientes, nem que seja para beber um café. Lembre-se de ajudar alguém ou alguma organização.

Àqueles que entretanto já foram apanhados pelo vírus e estão ou estiveram doentes, aqui ficam os votos de melhoras e coragem.

Vamos então encarar mais esta fase de restrições, impostas ou voluntárias, que havemos de superar com a nossa capacidade de luta, força e orgulho.


MIGUEL RODEIA




 

Lutar pelo que se já lutou

10/10/2020

Vivemos num País que damos por certos os direitos adquiridos.
O direito adquirido está protegido de futuras mudanças legislativas que regulem o fim pelo qual o fez surgir, precisamente porque tal direito já se encontra incorporado ao seu património jurídico.

O que vemos actualmente pelo Mundo fora, existem vários países em que os direitos da comunidade LGBTQI+ estão a ser ignorados, alterados e revogados.
Com as alterações políticas que se vislumbram na Europa é justo temer que num futuro que pode ser mais próximo do que se imagina e que nos faz ver que esses direitos adquiridos não são tão irrevogáveis como pensamos.

Aqui mesmo na Europa temos, por exemplo, o caso da Polónia, que mesmo pertencendo à União Europeia, abriu uma ‘guerra’ contra as pessoas LGBTQI+ que já levou à condenação e previstas sanções, por parte da União Europeia, caso não corrijam as suas políticas.
Aberta, está também uma ‘guerra’ contra os direitos LGBTQI+ na Hungria por parte do poder político. As pessoas LGBTQI+ veem-se assim limitadas cada vez mais ao direito da sua livre existência.
Situações essas que levou a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a afirmar: “Não descansarei enquanto não construir uma União de igualdade, uma União onde cada um possa ser o que é, e ame quem quiser, sem medos ou recriminações”.


Na Rússia a polícia mata apenas por uma pessoa ser homossexual. A homossexualidade foi considerada um crime até 1993 e uma doença mental até 1999. Existem comunidades homossexuais ativas nas principais cidades do país, a atmosfera é mais tensa desde que a Rússia adotou, em 2013, uma lei que proíbe a "propaganda" gay a menores.
Embora Vladimir Putin admita que o País aceita a homossexualidade e permitir o associativismo, a repressão contra a comunidade LGBTQI+ é diária.
A perseguição é ainda mais gravosa a pessoas transgénero que Putin não aceita de todo.

Mais recentemente sabe-se que a polícia do Egito usa aplicações de namoro ou encontros para identificar e prender pessoas LGBT +. A polícia cria perfis falsos que usa para encontrar gays, lésbicas, bi e trans, sendo então apanhados na rua e presos arbitrariamente.

Pensarão… Isto nunca aconteceria em Portugal.
A Constituição Portuguesa estabelece no seu 13º Artigo o Princípio da Igualdade: ”Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”.


Claro que não enquanto tivermos uma democracia pluralista com 46 de maturação e não deixando que extremismos, como esses que vemos nesses países, ganharem peso na nossa sociedade poderemos estar descansados.

Cabe a nós pertencentes a uma qualquer minoria, fazermo-nos ouvir que não baixaremos os braços se porventura quiserem retirar-nos direitos, liberdade e garantias previstas a Constituição Portuguesa.

Torna-se necessário estarmos mais atentos que nunca, pois podemos acabar por ter que lutar pelo que se já lutou.

MIGUEL RODEIA

 

A Língua, o género e o futuro

03/10/2020

O conhecimento sobre a identidade de género tem aumentado pois tem sido estudada mais do que nunca.
Fruto de todo esse trabalho em todo Mundo, tem trazido maior percepção para as questões da individualidade de género.
Traz também a percepção que há muitas pessoas que sofrem diariamente pela incompreensão e falta de esclarecimento da sociedade em geral.
Todo esse conhecimento, que evolui diariamente, começa a surtir efeitos na sociedade.

Assim, o disposto na Resolução do Conselho de Ministros n.º 61/2018, de 21 de Maio, que define a Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação 2018-2030 «Portugal + Igual», o Ministério da Defesa enviou ao Estado-Maior-General das Forças Armadas uma directiva que pretende uma política de comunicação oral e escrita “inclusiva em todos os documentos oficiais”.
Segundo as novas regras, deve-se "salientar a importância para a utilização de linguagem sensível ao género, dar a conhecer exemplos práticos que previnam a utilização de linguagem discriminatória e contribuir para a eliminação dos estereótipos existentes".

Este é um primeiro passo para a evolução no trato das pessoas independente do género.
Uma língua está em constante evolução, pois são as pessoas que a fazem ao adoptar termos, palavras e expressões em detrimento de outras que entram a desuso.
No caso da Língua Portuguesa que recorre à utilização do género masculino para designar as pessoas de ambos os sexos, estes ajustamentos são perfeitamente naturais.

Não se pense que é apenas em Portugal. A Directiva do Governo emana de uma Convenção das Nações Unidas sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres.

Dito isto, ainda há muito caminho a percorrer para que este trato seja aplicado à transexualidade ou outras identidades de género. Abre apenas o precedente para a inevitável adesão a uma língua menos discriminatória. Não, não se trata de uma “loucura da identidade de género”, citando José Manuel Fernandes, mas segundo Susana Pereira, da Associação para a Cidadania,“A Língua não é neutra, reflete e influencia atitudes, comportamentos e estereótipos de género”, tratando-se apenas da normal adaptação da Língua à evolução humana. Já a socióloga Isabel Ventura lembra que “desde 1985 que há recomendações para a eliminação do sexismo na linguagem”.

Não estou a falar do "Sistema Elu" que se baseia num conjunto de propostas linguísticas criadas com o propósito de preparar a língua portuguesa com um género gramatical neutro.
Estas propostas têm para já o valor de nos fazer pensar no futuro. Não do futuro da minha geração ou próximas. Falo da geração do digital, em que o conhecimento das questões das sexualidades e de géneros já não é passado pelos progenitores e educadores, mas sim pelo acesso à muita informação do mundo dos três w’s e séries televisivas.

Por sua vez, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que tem como objetivo criar uma ortografia unificada para o português, a ser usada por todos os países de língua oficial portuguesa, nada refere ou reflete sobre este assunto.
Acontece que a adesão gerou polémica e que nem todos os países de língua oficial portuguesa o implantaram. Abriu, sim, portas a cada um escrever como lhe é mais conveniente ou aprazível.
Confesso que sou um resistente ao uso do Acordo Ortográfico, não compreendendo muitas das suas “normalizações” de palavras, mantendo-me fiel à forma que aprendi.
Já no trato de género, adapto a minha linguagem às situações, bem como às pessoas a que me dirijo, respeitando sempre que possível a sua individualidade.
A Língua Portuguesa evoluirá, com toda a certeza, como sempre aconteceu. Mais geração, menos geração, será tudo uma questão de tempo.

MIGUEL RODEIA

 

Activismo

27/09/2020

Perguntaram-me em que associação se deve inscrever para ser um activista da causa LGBTQI+. Qual eu achava melhor?
Expliquei então que para ser activista de uma causa não é necessário pertencer a uma associação.

Pode associar-se e é automaticamente um apoiante do activismo das causas dessa organização, mas não fazer nada em prol das suas causas e isso não o torna activista.


Um activista é quem defende ou pratica algum tipo de activismo em defesa de causas, por norma, causas que são minimizadas pela sociedade em geral ou da classe política.
Tanto pode ser a defesa ou reivindicação de direitos LGBTQI+, defesa do ambiente, antirracismo, luta contra fome, defesa da paz, etc…

Pode ser-se activista sem pertencer, ou participar em alguma organização ou associação.
O activismo individual é tão válido como colectivo. O simples facto de estar presente nas mais variadas manifestações ou no financiamento e divulgação de campanhas é activismo.

A título de exemplo a campanha que está a decorrer ‘Doar Também é Marchar’, rede de apoio criada pela Comissão Organizadora da Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa que visa fazer face a situações de sem-abrigo, de fome, de falta de medicamentos, da impossibilidade de pagamento de despesas de primeira necessidade e onde pode contribuir com um donativo ou oferecer-se para colaborar como voluntário.

Ou, a nível internacional as campanhas levadas a cabo pela All Out que muitas das vezes, basta subscrever um abaixo-assinado ou um donativo por pequeno que seja.
Apoiar campanhas deste género é ser-se activista também, mesmo sem sair de casa e à distância de um clic.

No dia-a-dia, entrar em debates nas redes sociais e defender direitos, liberdades e garantias, é ser-se activista.
Indignar-se, e mostrar essa indignação, quando se vê atropelos à dignidade humana, é ser-se ativista.
Seja ativista com as suas atitudes, defendendo as causas que entende como justas.
Passe a palavra. Passar a palavra tem um poder enorme.


Voltemos ao início, que associação se deve inscrever para ser um activista da causa LGBTQI+.
Em qualquer uma, ou até mais do que uma. Ser-se sócio e pagar a quota já é uma grande ajuda a qualquer associação.
Mas pode ser voluntário numa associação que é uma forma altruísta de activismo, mesmo que seja pontualmente e não carece de ser sócio.
Veja o campo de acção de cada associação e opte por aquela se aproxima mais das suas ideias. Tome atenção às actividades desenvolvidas por cada uma e veja com quais mais se identifica.
Escolha qual quer apoiar e contribuir da forma que está ao seu alcance.

Ser-se activista, não é uma moda, não é para impressionar os seus amigos, não é ‘para ficar bem na fotografia’, não lhe traz nenhum benefício próprio.
Ser-se activista é lutar por quem não pode ou não consegue fazê-lo sozinho. É lutar por causas, por direitos, por uma sociedade mais equitativa.


Ser-se activista é uma forma de estar na vida.



MIGUEL RODEIA

‘Doar Também é Marchar’
https://chuffed.org/project/continuamosamarchar?fbclid=IwAR1_yded_5627Y2d7Wmr2cvzpK4Hs2YTF5iZ75CKm8k629WFi2sdMLN7Fts

All Out
https://www.youtube.com/watch?v=YKe-GibFB_s&feature=emb_logo

 

Obviamente, a bandeira

19/09/2020

Ao escrever no passado mês Julho um artigo sobre a bandeira criada por Daniel Quasar em 2018 e da sua visão da comunidade LGBTQI+, o assunto ficou a vaguear entre os meus pensamentos.
Quasar introduziu na bandeira Arco-Íris a questão do género e a segregação da raça negra, questão essa já incluída na bandeira feita para a Semana Mundial do Orgulho Gay de 2017, na cidade de Filadelfia, nos EUA.
A bandeira Arco-Íris foi concebida por Gilbert Baker para representação da comunidade homossexual em 1978, a pedido do activista Harvey Milk para o Dia de Liberdade Gay, em São Francisco, nos EUA. Tendo pouco depois sido reduzida em duas faixas ficando assim as actuais seis que a compõem.
E assim se tem mantido a representar as questões das sexualidades e de género, inerentemente interligadas. Parece-me não fazer sentido juntar-lhe qualquer referência a questões raciais como as duas versões alternativas o fazem.
Na versão de Daniel Quasar existe ainda uma faixa negra em homenagem às vítimas da SIDA, que também não me parece justo, uma vez que a doença matou e continua a matar muita gente independentemente da sua sexualidade, género, faixa etária ou raça.
A bandeira Arco-Íris é uma bandeira de carácter universal e qualquer representação nova que se lhe atribua não deverá ter especificidades de certos países ou de determinados locais. Deve ser, sim, agregadora da comunidade LGBTQI+ mundial.

Na situação política actual em certos países, onde vemos serem restringidos ou revogados em alguns países, direitos adquiridos para pessoas LGBTQI+, urge a comunidade estar mais unida do que nunca.
Com o entendimento científico, ao longo dos tempos, de novas formas de ver as sexualidades e as especificidades em questões de género a comunidade tem vindo a dividir-se em subgrupos e subculturas, perdendo um pouco o sentido de união que a bandeira Arco-Íris abarca.

Surgiu-me então a ideia da necessidade de uma bandeira que fosse mais inclusiva e que represente a comunidade LGBTQI+ como um todo, tentando assim chamar a atenção que a palavra de ordem é - unir.
União, essa que trará mais força e mais poder a comunidade LGBTQI+ internacional para conseguir mobilizar mais gente para as lutas que se terão que travar num futuro próximo.

A bandeira criada, em parceria com o designer Carlos Bignotti, tem essa missão e essa mensagem, seja ela a escolhida pelas pessoas, organizações e comunidade em geral para o futuro, que embora esteja registada o seu uso é do Domínio Público.

O nosso trabalho está feito. Agora, qual pai vê um filho tornar-se independente, com a força dos argumentos apresentados na sua divulgação, a bandeira seguirá o seu próprio caminho, seja ele qual for.

 

O Regresso

05/09/2020

Nesta época do ano, nos perfis e fotografias das redes sociais o mais frequente é ver pessoas em momentos descontraídos, bem-dispostas, a sorrir e mostrar como tudo corre bem.
De verão o que se exibe são os corpos trabalhados no ginásio ou as dietas feitas, o ‘bronze’, os óculos de marca ou o calção de banho ou biquíni, mais ou mesmo sexy. Claro acompanhado das paisagens, do mar, da espreguiçadeira, da bebida chic e claro de sorrisos imensos.
Por outro lado temos as viagens, as selfies de cabecinha encostada, dos monumentos, dos museus e do sorriso que não pode faltar.
E tudo está bem.

Infelizmente a vida não é assim. Todas essas manifestações de felicidade começam a esmorecer com o ‘descer à terra’ no fim das férias.
Começou o mês de Setembro, o regresso à vida real de uma grande maioria. Este ano um regresso sobrecarregado com toda a incerteza do futuro devido à pandemia que atravessamos.
Estamos de encarar um dos piores anos das nossas vidas em sociedade.

O regresso à actividade profissional, das escolas, das empresas, das fábricas, do comércio e serviços, com a sazonalidade da época gripal vai ser o nosso próximo grande desafio.
Vamos voltar aos procedimentos cautelosos de desinfecção das mãos, do uso da máscara (que parece evidente ir tornar-se obrigatório o uso em todo o espaço público) e o distanciamento social.
Um certo relaxamento que se verificou nestas precauções durante verão vai forçosamente mudar.
Não vai ser um tempo de excepção, como no início do ano, em que ninguém estava preparado para enfrentar uma pandemia completamente nova. O efeito novidade desapareceu.
Agora temos uma melhor noção do que o vírus é capaz. Agora sabemos como nos proteger.
O distanciamento social é o primeiro passo, mas sou levado a concordar com Aboubakar Soumahoro, sindicalista, que “O distanciamento é um privilégio”.

Lembro todos aqueles que se têm de deslocar em transportes públicos cheios em que o distanciamento varia, entre uns 0 e 5cm nas horas de ponta.
Lembro todos aqueles que trabalham em fábricas e escritórios onde também é impossível pôr em prática o metro e meio de distância.
Todos os que se têm de deslocar com os filhos para aqui e para ali, entrando e saído dos mais diversos espaços.
Lembro a dificuldade que há em estar constantemente a desinfectar as mãos no stress do dia-a-dia.
Lembro aqueles que trabalham para o bem comum e que lidam com dezenas de pessoas nas repartições públicas e nos serviços, salientado todos aqueles que trabalham nos hospitais, na segurança ou na emergência.
E só uma minoria se pode dar ao luxo de manter a distância social. Trabalhando em casa, deslocando-se em viaturas privadas, locais de trabalho generosos e sem atendimento ao público e com os seus contactos pessoais muito reduzidos.

Teremos de agir em sociedade e a defendermo-nos uns aos outros. O grande remédio para já é a prevenção.
Vai ser difícil. Talvez tenhamos de confinar novamente. Vai haver complicações de todo o género, vão pessoas adoecer, morrer e outras curar-se.
Iremos ultrapassar mais este desafio difícil se todos agirmos como um todo para o bem comum.

 MIGUEL RODEIA

 

Portugal LG

29/08/2020

A propósito de uma publicação na semana passada, da Fundação Francisco Manuel do Santos, de um estudo europeu sobre a aceitação da homossexualidade em vários países da Europa, realizado em Dezembro de 2018, fiquei indignado.

Com o título “A tolerância dos portugueses em relação aos homossexuais tem aumentado”, que é quase ofensivo para os homossexuais, uma vez que não têm de ser tolerados mas sim aceites como qualquer outra pessoa.
Na tentativa de entender tamanho disparate fui ver a publicação. Se não bastasse o título vendo o inquérito essa mesma ideia está expressa na pergunta: - “Homossexuais devem poder viver como querem?”
Incrédulo, surgiu-me uma questão para aos doutos que fazem estes inquéritos: Como pensam que os homossexuais deveriam viver em Portugal?
Confesso que tinha a Fundação Francisco Manuel do Santos como uma instituição com um pouco mais de sensibilidade social.

Claro que com o passar do tempo a sociedade portuguesa aceita melhor a homossexualidade, chama-se a isso – evolução - aceitar o próximo como ele é.
Embora haja muito ainda a conquistar, com todas as medidas legislativas que visaram a comunidade LGBTQI+ sobretudo da última década trouxe também mais abertura de e para a sociedade.

Não se pode ver Portugal, relativamente a esta questão como um todo, uma vez que existem grandes clivagens entre sociedade urbana e a do interior do País.
Sucintamente, Portugal continental existe mais que uma realidade, Lisboa e Porto, Algarve, Leiria, Braga, Aveiro, Cidades com universidades e o chamado interior profundo.

Lisboa e Porto são duas grandes urbes onde o individualismo reina. Não há na realidade uma aceitação tão grande como pode parecer à primeira vista. Prevalece o - ignorar - em relação ao - aceitar.
O Algarve, local de turismo por excelência há muito que estão habituados à presença de homossexuais estrangeiros e consequentemente portugueses. O verão, o sol e o mar propiciam um maior à vontade, logo uma maior visibilidade do que no dia-a-dia do resto do ano.
Já Braga, Aveiro e Leiria, são cidades onde as pessoas LGBTQI+ estão habitualmente mais à vontade. Confesso que é uma simples constatação para a qual não entendi ainda a explicação.
Já se torna fácil entender porque cito as cidades com universidades. A presença de estudantes, e de várias nacionalidades, levam a essas cidades gente jovem já com uma forma de ver a sociedade mais inclusiva, influenciando assim as suas populações.
Já no interior profundo, a aceitação é quase nula e conta o factor de as pessoas LGBTQI+ escolherem meios urbanos para viver.

Logo um estudo como este apresentado terá de ter em consideração estes factores.
Esta publicação da Fundação francisco Manuel dos Santos peca mais ainda pelo facto de apenas mostrar um gráfico sem qualquer explicação técnica, feito à dois anos e desresponsabilizando-se sobre o mesmo.
E assim se deteriora a credibilidade de uma instituição.

E com tudo isto, o que ficamos a saber!? Pouco mais que nada da realidade quanto à aceitação da homossexualidade em Portugal.


MIGUEL RODEIA

A propósito de uma publicação na semana passada, da Fundação Francisco Manuel do Santos, de um estudo europeu sobre a aceitação da homossexualidade em vários países da Europa, realizado em Dezembro de 2018, fiquei indignado.

Com o título “A tolerância dos portugueses em relação aos homossexuais tem aumentado”, que é quase ofensivo para os homossexuais, uma vez que não têm de ser tolerados mas sim aceites como qualquer outra pessoa.
Na tentativa de entender tamanho disparate fui ver a publicação. Se não bastasse o título vendo o inquérito essa mesma ideia está expressa na pergunta: - “Homossexuais devem poder viver como querem?”
Incrédulo, surgiu-me uma questão para aos doutos que fazem estes inquéritos: Como pensam que os homossexuais deveriam viver em Portugal?
Confesso que tinha a Fundação Francisco Manuel do Santos como uma instituição com um pouco mais de sensibilidade social.

Claro que com o passar do tempo a sociedade portuguesa aceita melhor a homossexualidade, chama-se a isso – evolução - aceitar o próximo como ele é.
Embora haja muito ainda a conquistar, com todas as medidas legislativas que visaram a comunidade LGBTQI+ sobretudo da última década trouxe também mais abertura de e para a sociedade.

Não se pode ver Portugal, relativamente a esta questão como um todo, uma vez que existem grandes clivagens entre sociedade urbana e a do interior do País.
Sucintamente, Portugal continental existe mais que uma realidade, Lisboa e Porto, Algarve, Leiria, Braga, Aveiro, Cidades com universidades e o chamado interior profundo.

Lisboa e Porto são duas grandes urbes onde o individualismo reina. Não há na realidade uma aceitação tão grande como pode parecer à primeira vista. Prevalece o - ignorar - em relação ao - aceitar.
O Algarve, local de turismo por excelência há muito que estão habituados à presença de homossexuais estrangeiros e consequentemente portugueses. O verão, o sol e o mar propiciam um maior à vontade, logo uma maior visibilidade do que no dia-a-dia do resto do ano.
Já Braga, Aveiro e Leiria, são cidades onde as pessoas LGBTQI+ estão habitualmente mais à vontade. Confesso que é uma simples constatação para a qual não entendi ainda a explicação.
Já se torna fácil entender porque cito as cidades com universidades. A presença de estudantes, e de várias nacionalidades, levam a essas cidades gente jovem já com uma forma de ver a sociedade mais inclusiva, influenciando assim as suas populações.
Já no interior profundo, a aceitação é quase nula e conta o factor de as pessoas LGBTQI+ escolherem meios urbanos para viver.

Logo um estudo como este apresentado terá de ter em consideração estes factores.
Esta publicação da Fundação francisco Manuel dos Santos peca mais ainda pelo facto de apenas mostrar um gráfico sem qualquer explicação técnica, feito à dois anos e desresponsabilizando-se sobre o mesmo.
E assim se deteriora a credibilidade de uma instituição.

E com tudo isto, o que ficamos a saber!? Pouco mais que nada da realidade quanto à aceitação da homossexualidade em Portugal.


MIGUEL RODEIA

 

A Vulgarização da Petição Pública

23/08/2020

A petição Publica é um instrumento que garante aos cidadãos a intervenção junto do poder político ou instituído, ao abrigo do 52º artigo da Constituição da República Portuguesa.
O recurso a Petições Públicas inconsequentes e com a finalidade apenas de criar ruído e sem expressar uma ideia verdadeiramente útil, vulgarizam-na e tornam este instrumento de cidadania mais fraco, para o que verdadeiramente importa.
Questões que devem ser discutidas para o bem comum assim como a da participação política de um qualquer cidadão.
Petição Pública esta, que já serviu em várias causas LGBTQI+ e continuará a ser um instrumento a que a comunidade usará sempre que se justifique.

Os dois maiores partidos do nosso sistema querem agora alterar de 4.000 para 10.000 as assinaturas necessárias para que um assunto seja obrigatoriamente atendido e discutido pela instituição pública visada.
O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa vetou esse documento, devolvendo-o assim à Assembleia da República, para nova análise e discussão do documento.
Ora como previsto na lei depois de sujeito a nova votação, o Presidente da República terá obrigatoriamente de o aprovar.

Este instrumento da nossa democracia permite dar voz a causas de minorias, a causas de cariz local e de pequenas populações. Daí o legislador ter optado por 4.000 assinaturas válidas serem suficientes e para permitir o acesso mais abrangente.
O aumento das assinaturas necessárias para fazer valer a Petição, irá excluir milhares de portugueses que ficam assim mais distantes do poder político.

Causas como as muitas do interior do País que dessa forma não vão chegar ao poder local e centralizado de Lisboa.
Fica mais difícil de levar à discussão causas de minorias, como as de direitos dos deficientes, de direitos humanos ou direito de defesa dos animais, etc… 

Aumentando o número de assinaturas deixa-se que esse instrumento de cidadania fique só acessível a grandes causas e interesses partidários que têm maior capacidade de mobilização.
Veja-se o que aconteceu com a Petição Pública com o intuito de não permitir que André Ventura tomasse posse como deputado ou com a mesma finalidade a petição feita visando a deputada Joacine Catar Moreira. Verdadeiramente inconsequentes, porque ambos tinham acabado de ser eleitos pelo poder do voto popular.

Acedendo ao sítio da Petição Pública podemos verificar que existem petições para todos os gostos e feitios, por exemplo: O bones jogar roblox, Petição pro Gregore pegar o Daniel Alves na porrada, Fazer o Mirai e o Manthinks lançarem "stars" ??????. Este tipo de petições desvirtuam este instrumento de democracia que roubam espaço e destaque a outras como: Petição para impedir prédio em zona de moradias, Petição para a construção de um Skate Park em Vila Real, Parque Canino em Odivelas Centro. Assuntos locais que são importantes para as pessoas e localidades em causa que de outra forma não têm hipótese de serem discutidas.


É este uso ‘por dá cá aquela palha’, esta vulgarização e distorção da real importância da Petição Pública que a está enfraquecer e dar argumentos aos partidos a favor do aumento de assinaturas.


MIGUEL RODEIA

 

Turismo LGBTQI+

15/08/2000

Esta semana foi noticiado que numa iniciativa da Câmara de Comércio LGBT da Argentina no passado dia 10, foi comemorado pela primeira vez aquele a que chamaram Dia Mundial do Turismo LGBTQ+, com cerimónias diversas e actividades temáticas.
Esta iniciativa já contará com apoio de outros países, como o Brasil, Canadá, EUA, Espanha, Costa Rica, Paraguai, Uruguai, Israel, Itália e Reino Unido.
Não tendo sido encontrada mais informação sobre o decretar do Dia Mundial, nem qual o tipo de apoio dos países acima referidos.

Mas a propósito desta notícia vejamos como vamos de turismo LGBTQI+.
Turismo Gay ou LGBT tem-se incrementado nos últimos anos em lugares de ampla ou alguma aceitação social da homossexualidade transformando-se numa indústria que move milhares de milhões de euros todos os anos a nível mundial.

Numa pesquisa rápida pela internet, não faltam sugestões de turismo LGBTQI+.
Desde o clássico Spartacus International Gay Guide que reúne informação referente a todo o mundo, a guias nacionais ou locais e que mantém Portugal como um dos melhores países gay friendly. Sejam de iniciativa governamental, de organizações turísticas ou de associações LGBTQI+, é sempre útil poder consultar esses guias para sabermos onde poderemos estar em segurança num ambiente que nos é favorável.
Muito destes guias além de indicar locais dirigidos à comunidade, indica também a legislação dos países referentes aos direitos LGBTQI+ que nos alertam para limitações legais a que possamos não estar habituados, sobretudo quando se viaja sozinho.
Também são várias as páginas no facebook dedicadas ao turismo LGBTQI+. Enfim parece-me ser interessante consultar estes locais no mundo virtual ao planear uma viagem.

Por cá, e sendo certo que Portugal está avançado na aceitação das relações LGBTQI+ sobretudo no que toca ao turismo, há quem prefira locais específicos para a comunidade pela segurança, pelo à vontade, para travar novos conhecimentos, enfim para estar entre pares.
Onde se encontra bastante oferta é no turismo de habitação e no turismo rural e que em tempos de COVID-19 têm tido maior procura.
Além de bares e restaurantes, discotecas, locais de encontro, temos as praias.
Numa lista feita pela dezanove.pt resultante da opinião de várias pessoas e de sites especializados, apresenta doze praias portuguesas. A saber, Foz do Minho em Caminha, Praia das Pedrinhas em Ofir, Praia do Furadouro em Ovar, Praia do Palheirão em Mira, Praia de Cova-Gala na Figueira da Foz, Praia da NATO na Costa da Caparica, Praia do Malhão em Odemira, Praia Grande em Armação de Pera, Praia da Cacela Velha em Castro Marim, Praia do Homem Nu na Ilha de Tavira bem como as afamadas praias 19 e do Meco na Costa da Caparica.

Portugal abriu as portas oficialmente ao turismo gay, em 2019, com um vídeo dirigido à comunidade LGBTQI+, com o apoio do Instituto de Turismo de Portugal, disponível no YouTube, inserido no Projecto Proudly Portugal desenvolvido pela Associação Variações.

Portugal. Travel to feel.

https://www.youtube.com/watch?v=ZqNWYcUM1ZM

Por tudo isto e em plena pandemia, não será por falta de locais gay friendly em Portugal para tempo de férias, que as pessoas da comunidade LGBTQI+ não possam fazer valer o slogan – Vá para fora, cá dentro.

Boas férias!

MIGUEL RODEIA

 

Ser-se o que se é

08/08/2000

Vejo discutir-se sobre o ser uma pessoa normal e já fui confrontado com essa questão. De imediato pergunto: - Define ‘normal’?
Segundo o dicionário normal é sinónimo de regular ou estar dentro da norma. Ora isto é aplicável a diversas coisas, acções ou propósitos e não a pessoas.
Até hoje nunca ninguém me conseguiu dar essa definição de forma sustentada. Não existem pessoas normais, uma vez que somos todos diferentes e originais.

Ser-se genuíno como pessoa, respeitando-se a si próprio, exteriorizar o que se é, o que se sente, é o ser verdadeiramente normal.
A normalidade é uma coisa fluída e não estagnada e não é possível baliza-la. Não é a visão ou a opinião dos outros que devem dizer se somos normais. Essa ‘verdade’ não existe.
A sociedade em que vivemos é cruel para quem se diferencia do convencionado. Mulheres e homens são alvo de críticas e chacota quando não estão dentro desses padrões instalados pela sociedade.
Assim acontece com muita gente da comunidade LGBTQI+.
A capacidade de encaixe que se tem quando alguém tenta agredir com insultos e gracejos é bastante importante para defesa própria.

Numa declaração de Mia Seixas da ‘Rede ex aequo’, refere que se a chamarem de ‘fufa’ e ela aceitar essa expressão deixa de ser um insulto.
Identifico-me completamente com essa atitude.
Ou como diria Salomé, figura carismática do travesti da noite Lisboa nas décadas de 80/90, numa reacção com muita graça quando era alvo de gozo ou insulto: - Arrasos para mim são vitaminas!
São formas de defesa e de desvalorizar quem tenta agredir de forma insultuosa.

Existe dentro da comunidade, muitas pessoas que vivem aprisionados a uma aparência em nome dessa normalidade que a sociedade impõe, seja por causa do trabalho, da família ou outra qualquer razão. Não tem de ser assim.

Com o passar do tempo e alguma abertura da sociedade na aceitação de pessoas diferentes, começa a cair por terra essa tentativa de definição do convencional – do normal. O que hoje é, amanhã pode deixar ser.
Ser diferente é ser-se mais rico de espírito, é estar bem consigo mesmo, ser-se em pleno e sem medos ou receios. É um direito.

Àqueles que estão em processo de afirmação de serem abertamente o que são interiormente, àqueles que estão em processo de libertação dos estigmas impostos por uma sociedade que ainda tem muito de conservadora, deixo aqui parte da letra, daquele que é considerado um dos hinos LGBTQI+, ‘I am what I am’ de Jerry Herman. Canção esta, que já inspirou tanta gente no mundo a afirmar-se perante a vida, perante a sociedade, mas acima de tudo perante si própria.

I am what I am / I am my own special creation / So come take a look / Give me the hook or the ovation / It's my world that I want to have a little pride in / My world and it's not a place I have to hide in / Life's not worth a damn till you can say / Hey world I am what I am…

(Eu sou o que sou / Eu sou minha própria criação especial / Então olha para mim / Dê-me um soco ou a ovação / É do meu mundo que quero ter um pouco de orgulho / Meu mundo e não é um lugar onde devo me esconder / A vida não vale nada até que você possa dizer / Ei mundo, eu sou o que sou…)

MIGUEL RODEIA

 

Relações e Conceitos

01/08/2020

Tens razão. É um tempo e uma época que não volta mais – Dizia-me um amigo quando falava-mos de romance, ou melhor da falta dele.

O romance demora tempo e hoje é tudo no imediato, no já, no agora, na distância de um clic. O namoro é quase inexistente, esse tempo de excelência para o romance.

Mas a forma de estar na sociedade mudou, as pessoas mudaram, encontraram outras formas de relacionamento.

A monogamia já não é o padrão dos relacionamentos. 
Segundo o médico Leonardo Carvalho, existem várias formas de relacionamentos não monogâmicos. 

Fruto da abertura da sociedade e das leis, as relações homoafectivas ganharam espaço na sociedade. O casamento, entre pessoas do mesmo sexo, é incentivador à prática da monogamia.

No entanto, essa mesma abertura de costumes, trouxe à tona outros tipos de relacionamentos. As práticas não monogâmicas tornam-se mais comuns e visíveis.

Assim, e segundo Leonardo Carvalho, existe o ‘Relacionamento liberal’, com um molde monogâmico clássico mas que permite liberdade sexual, como beijar outras pessoas ou a prática do swing (sexo entre casais).

Já quando os envolvidos apresentam exclusividade afetiva entre si, mas tem liberdade sexual e ter relações com outras pessoas, tratar-se-á de um ‘Relacionamento aberto’.

‘Don’t ask, don’t tell’, trata-se de um relacionamento aberto em que os envolvidos apresentam liberdade sexual, mas têm um acordo de nunca comentarem ou perguntarem sobre as suas aventuras com o seu parceiro.

‘Poliamor fechado’ ou ‘Polifidelidade’ é uma forma de relacionamento que envolve três ou mais pessoas, que se relacionam sexual e amorosamente apenas entre si.

Já o ‘Poliamor aberto’ trata-se de um relacionamento que envolve três ou mais pessoas, que têm a liberdade de manterem relações sexuais com outras pessoas. Geralmente neste caso adota-se a exclusividade afetiva, ou seja, os envolvidos têm envolvimento amoroso apenas entre si. Quando há liberdade sexual e afetiva, o conceito confunde-se com o de ‘Amor Livre’.

Nas ‘Relações Livres’ ou ‘Amor Livre’ existe liberdade sexual e afetiva, estando os envolvidos livres para desfrutar de sexo ou amor com quem lhes for aprazível.

Já quem desfruta dos relacionamentos sem adotar rótulos e que rejeita qualquer definiçāo entre os tipos de relacionamento, pode-se denominar de ‘Anarquia relacional’.

Estas são apenas definições gerais e bastante simplificadas. A ‘Não monogamia’ não é um conceito exacto e dependerá da visão de cada um.

As relações ‘Não monogâmicas’ caressem de uma conversa sobre o como e o deve ocorrer, bem como quais são as ‘regras’. Não existe um certo e errado, apenas o que é mais confortável para todas as partes envolvidas

Essas regras não são imutáveis. Eventualmente os envolvidos podem passar para relacionamentos mais livres ou mesmo adoptar um modelo mais fechado.

Sendo certo que os acordos entre duas ou mais pessoas adultas dizem respeito apenas aos envolvidos.

MIGUEL RODEIA

 

Nova Realidade

25/07/2020

Não podia deixar de escrever sobre este momento que a Humanidade está a passar e ultrapassar.
Para os que duvidavam ou mesmo pensavam o contrário - fomos todos iguais. Somos todos iguais.
É a primeira lição a tirar desta pandemia. Espero que as pessoas tenham sentido e entendido, o ser-se igual a todos os outros, independentemente de extracto social, raça, etnia, género, sexualidade e credo.
Todos tiveram essa oportunidade de aprender o sentido da igualdade.

Verdadeiramente ninguém sabe muito bem como será a 'nova realidade', de que tanto se fala, provocada por esta pandemia.

As escolas e professores perceberam que podem dar aulas sem ter que aturar alunos desrespeitadores, mal-educados e em segurança. Por seu lado os pais, habituados a despejar os filhos na escola, muitos viram-se forçados a ter o papel de educativo que nunca deviam ter deixado de assumir.
Fica aberto um caminho para um ensino misto entre o tecnológico e presencial.

O Estado e as empresas perceberam que o teletrabalho funciona e vão reequacionar o seu funcionamento e o tamanho das suas instalações.
Por outro lado, os funcionários perceberam que com o teletrabalho podem ter mais qualidade de vida, não perderem horas em engarrafamentos, gastar dinheiro em almoços, ter mais tempo em família, ter mais tempo para si próprio.

Depois do País voltar a laborar a uma velocidade de cruzeiro para o início retoma da economia, vai passar por estas novas percepções adquiridas.
Um sem fim de coisas, que agora as pessoas foram forçadas a aprender a fazer à distância, vai mudar hábitos e costumes.

Ainda está toda a gente a tentar perceber o que será essa 'nova realidade’. Ainda se apalpa para saber se não é terreno pantanoso. Ninguém sabe como vai ser, pode-se apenas fazer extrapolações e especulações.

Estamos agora na silly season, as pessoas querem gozar as suas férias ao ar livre, seja na praia, seja no campo. Neste Verão não querem só desconfinar como querem desopilar. Todos passamos durante quatro meses o que nunca teríamos imaginado de experienciar.


Na segunda quinzena de Setembro acabando-se as férias, as pessoas vão enfrentar o retomar a vida, o dia-a-dia, com receio do próximo. O uso da máscara tornou-se parte integrante na nossa indumentária. A distância social será parte do comportamento instintivo individual. Os serviços, escolas, empresas vão-se modificar e readaptar aos novos tempos.

É espectável que a partir de Setembro, segundo as autoridades, haja um aumento de casos e que será agravada com a chegada da época gripal.
Temos de estar preparados psicologicamente porque vai acontecer tudo outra vez.
O confinamento, a suspensão de serviços, aulas, empresas, etc… E assim teremos de viver.
Citando o epidemiologista Mário Jorge Santos, “As pandemias mudam a história e a maneira de viver”, “O risco de uma segunda vaga é elevado. Aliás, a maioria das pandemias ao longo da história ocorreu com duas ou três vagas e, portanto, a possibilidade de existência de uma segunda ou mesmo de uma terceira vaga é muito elevada”.

Quando houver uma vacina ou um medicamento eficaz, poderemos pensar em como se irá reajustar a sociedade, com novos valores e com a aprendizagem adquirida.
Então aí falaremos de uma normalidade que será aquela que colectivamente iremos construir.
Não ‘nova’, apenas diferente.

Com muitas dúvidas e poucas certezas, mas com grande esperança que se use esta adversidade para todos fazermos uma sociedade e um País melhor.
Pessoalmente, olho o futuro com alguma tranquilidade.
Havemos de nos levantar e enfrentar o que aí vem. Tudo depende de nós e da nossa atitude. 

Entretanto, Boas Férias para quem as tem.


MIGUEL RODEIA

 
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Nova Bandeira LGBTQI+

18/07/2020

Esta nova bandeira surgiu em 2018 pela mão de Daniel Quasar e da sua visão da comunidade LGBTQI+.
Quasar pretende desta forma ser mais inclusivo e tendo em conta também o progresso que se tem feito sobre a diversidade.
O branco, rosa e azul são cores importadas da bandeira transgénero, já as faixas castanha e preta representam pessoas raça negra e as vítimas decorrentes da SIDA.

Dando um olhar para o passado, até ao fim dos anos 70 vigorou como símbolo da homossexualidade o triangulo rosa e o triângulo negro invertidos destinado a sinalizar homossexuais, homens e mulheres respectivamente, nos campos de concentração nazi.

Harvey Milk (activista gay americano) fez o repto ao artista Gilbert Baker para que criasse um símbolo para o Dia de Liberdade Gay de São Francisco em 1978. (Antecessora das marchas do orgulho LGBTQI+).
Baker criou a partir do arco-íris uma bandeira com 8 faixas, cada uma com o seu significado.
O rosa para a sexualidade, o vermelho simbolizava a vida e o laranja a saúde, já o amarelo simbolizava o Sol (que quando nasce é para todos), para símbolo da natureza era naturalmente o verde, o azul-turquesa simbolizava a arte no seu sentido mais lato, o índigo representava a serenidade e por fim o violeta simbolizava o espírito.
Esta bandeira teve uma curta duração uma vez que em 1979 por motivos meramente financeiros o rosa deixou de constar, já o azul-turquesa e o índigo foram substituídos pelo azul.
Nasceu assim a bandeira de seis faixas, que ainda hoje vigora representa todas a minorias e diversidades na comunidade LGBTQI+.

As opiniões no seio da comunidade dividem-se.
Há pessoas que se identificam com esta nova versão, outras que entendem que a bandeira de seis faixas representa toda a diversidade da comunidade LGBTQI+.

Lembro que houve uma evolução na sigla que representa esta comunidade em que inicialmente era apenas LGBT e que foi evoluindo até chegar à forma LGBTQI+.
Esta evolução acontece e será natural que se adapte o seu maior símbolo à realidade actual.

A actual bandeira será suficientemente representativa e abrangente para não ser descartada?
As várias subcategorias da comunidade LGBTQI+ têm a sua bandeira e tenho alguma reserva sobre a eficácia desta nova alteração com apenas o ponto de vista do seu criador.
É discutível, a título de exemplo, a faixa castanha em representação da raça negra. E as outras raças humanas como são representadas? Porquê a raça negra se sobrepor a raças asiáticas ou às raças indígenas?

Deve-se pesar muito bem os prós e contras pois ela pode transmitir a diversidade para quem a compreende, mas transmitir divisões dentro da comunidade e confusão para quem não sabe ler o seu significado.
Dos símbolos / bandeiras para representar todos os subgrupos, numa breve pesquisa pelo mundo dos três w’s encontrei mais de 30 e realizei, que para me sentir devidamente representado tenho de recorrer a quatro bandeiras.
Para já esta nova bandeira ainda não assumida internacionalmente já está a criar divisões numa comunidade que se quer cada vez mais unida.


Um qualquer estudo de marketing poderá fazer uma melhor análise dos benefícios em se alterar a bandeira arco-íris, ‘imagem de marca’ já reconhecida pela sociedade.
Talvez o símbolo +, sobreposto nesta bandeira fosse suficientemente expressivo de toda a diversidade da comunidade, sem perder o valor representativo que já adquiriu.

Uma outra questão desta nova versão da bandeira é o seu design.
A meu ver, é claramente inestética, confusa e pouco apelativa.
Não sei o que o futuro lhe reserva, mas não creio que o sucesso seja grande.
Fica no ar se se pode aplicar o velho slogan de Fernando Pessoa sobre a coca-cola: - ‘Primeiro estranha-se, depois entranha-se’.


MIGUEL RODEIA

 

Legalização da Prostituição

11/07/2020

Através da Proposta da Juventude Socialista é trazida para o debate público a questão da ‘legalização’ da prostituição em Portugal.

Proposta bem trabalhada que para já não passa de um instrumento para abrir mais um debate transversal à sociedade portuguesa e levar à discussão no Parlamento.
Como primeiras reacções tivemos o previsível extremar de posições. É um assunto fracturante de ponto de vista moral, social e geracional.

As gerações mais velhas, logo mais conservadoras por natureza, mostram maior resistência a qualquer modificação da moldura legal de não penalização da prática e da criminalização do lenocínio.
Por seu lado, as gerações mais novas, são naturalmente mais abertas a mudanças e respeitadoras das diferenças e direitos individuais.

A discussão parte de um princípio hetronormativo enraizado na sociedade, muita vez comparando a prostituição a qualquer actividade de prestação de serviços.
Nada mais errado. Trata-se da prática mais antiga da humanidade como meio de sobrevivência. Teremos de olhar para o passado da humanidade de algumas sociedades da antiguidade em que já foi prática aceite e realizar que não se está a discutir nada de novo.

Os prós são tão válidos quanto os contra. Todos e cada um é dono da sua visão que entende como a correcta, mas uma vez que se discute a vida de outros dever-se-ia ter a noção que não se está no seu lugar, na sua pele.
Há que dar voz a quem pratica a prostituição seja mulher, homem, transgénero ou outro e que seja a prática de sexo heterossexual, homossexual ou outro.

Uma regulamentação poderá contribuir para minimizar as Doenças Sexualmente Transmissíveis, uma vez que as pessoas que praticam a prostituição estão identificadas e será mais fácil canalizar informação de forma preventiva. Se a isso juntarmos a distribuição de kits para a prática segura do sexo, já será mais um avanço de um trabalho de décadas que tem vindo a ser realizado por várias organizações civis.

Um outro aspecto é a possibilidade protecção social que se pode dar a essas pessoas. Será a oportunidade de criar instrumentos de protecção que estas pessoas lhes vêem negado.

Uma consequência inerente à ‘legalização’ seria o conhecimento de quantas pessoas se encontram nesta actividade, do seu género, das suas idades, das suas etnias e raças. Serviria também para a protecção da exploração e tráfico sexual.

O que esta discussão não pode passar por números das verbas possíveis na angariação de impostos (como li e ouvi). Falamos de pessoas, das suas vidas e de questões dos Direitos Humanos.

Vários países europeus já legalizaram a prostituição, com alguns problemas é certo, mas podemos usar essas experiências em consonância com a directiva europeia para formular o modelo português.

Na nossa sociedade que se quer com mais equidade, mais justa e harmoniosa, esta é a altura de darmos este passo no início da terceira década do século XXI.


MIGUEL RODEIA

 

Artistas LGBTQI+ e o Showbiz

04/07/2020

Se há profissões onde há maior aceitação e abertura para todos os géneros de pessoas, esse é o meio artístico. Demos um pequeno olhar para a evolução das atitudes em relação a orientações sexuais nas últimas quatro décadas.

Actualmente há muitos artistas de todas as áreas assumem a sua homossexualidade publicamente incluindo mesmo alguns já casados. Não é difícil de encontra-mos exemplos de figuras públicas que o fizeram. Dois casos bem actuais a título de exemplo:
- O caso de Inês Herédia e Gabriela Sobral, atriz/cantora e produtora respectivamente, casadas e com quem tem dois filhos gémeos por inseminação artificial de dador incógnito.
- Ou, Diogo Infante e Rui Calapez, actor e agente, casados em que Diogo é pai do Filipe que adoptou já com 9 anos de idade.

Em Portugal no século XX até à revolução de 1974, muitos foram os artistas, de todas as áreas, que sentiram o peso das ditaduras. Apenas por serem homossexuais houve, presos, deportados, exilados, torturados, internados em hospitais psiquiátricos, assassinados, desaparecidos.

Desde o início século passado, com o desenvolvimento do cinema e da aviação comercial, transportou os artistas para a escala mundial. Em simultâneo e consequentemente começa a nascer o estilo de ‘impressa cor de rosa’.
Então artistas começaram a controlar mais as suas vidas privadas por questões de imagem.
Muitos que se sabia à ‘boca pequena’ no meio e entre os seus pares ocultavam as suas relações. Rapidamente os produtores e agentes começaram a controlar a imagem pública dos seus artistas.
A homossexualidade era disfarçada através de relações fictícias, por vezes remuneradas, fosse relativo a homens ou relativo a mulheres.

Esse tipo atitudes ainda se encontravam bem presentes na década de 80 e Portugal não foi excepção.
Os bailarinos talvez fossem dos primeiros a ‘não disfarçar’, uma vez que a fama de serem homossexuais estava enraizada na sociedade. Neste caso as dificuldades eram talvez mais para os bailarinos héteros se afastarem dessa reputação.
Dos vários ramos das artes, sabia-se deste ou daquela, consta que, diz-se que, não sei mas eu acho que sim.

A primeira relação do meio artístico assumida publicamente, de que me recordo, no início dos anos 80 que à época foi uma ‘pedrada num charco’, foi a relação entre a actriz e escritora Ana Zanatti e a cantora Lara Li.
Certo é que esse pioneirismo trouxe a muitos dos seus pares uma abertura para, de forma mais ou menos visível, assumirem a sua sexualidade ou relações homossexuais.
Nessa década para muitas pessoas a sua sexualidade deixou de ser um tabu. E sim, devemos muito a Ana Zanatti e Lara Li, por isso.

Nas duas décadas do final do século houve muitos que se assumiram publicamente, alguns com custas para sua imagem e carreira profissional.

Mas houve quem resistisse por não ser comercial. Lembro-me de um artista que para esconder a sua sexualidade, contratou uma mulher para se passar por sua namorada que o acompanhava nas festas ou eventos públicos, encheu primeiras capas de revistas com essa pseudo-relação.
Ou de um produtor discográfico que um dia, me disse claramente, tentando justificar e proteger, o porquê de um dos seus cantores não namorar e não casar por ser ‘anticomercial’, por o seu público-alvo serem mulheres.

Desde o início deste século e com a evolução das próprias leis, conquistas dos movimentos LGBTQI+ juntamente com alguns partidos políticos, têm feito que já haja muitos artistas assumidos quanto às suas sexualidades e géneros, tendo sido acompanhados por outras figuras públicas do meio da televisão. Alguns assumiram os seus casamentos e alguns tiveram ou adoptaram filhos.

Ao longo do tempo desde os anos 80 ser-se homossexual nesse meio, em contraponto ao que se passava com artistas, eram nos bastidores. Nas equipas técnicas das diversas profissões qua as compõem era onde se encontravam mais resistências e por isso não houvesse muitos em que a sua sexualidade fosse assumida.

Actualmente vejo artistas, músicos, técnicos (a par das actividades de outras figuras públicas) assumirem a sua sexualidade, o seu género, sem grandes resistências por pertencer à comunidade LGBTQI+.
Há e haverá sempre quem o esconda ou recorra a um ‘low profile’ por receio de ser profissionalmente prejudicado para evitar problemas familiares ou apenas por forma de ser e de estar na vida.

Mas penso que as figuras públicas, assumirem que se enquadram na comunidade LGBTQI+ ou nos seus valores, podem dar um contributo de excepção visando uma maior aceitação da sociedade.

MIGUEL RODEIA

 

Marchas VS Empresas

27/07/2020

A Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa foi cancelada à semelhança de outras cidades e Países.
Só em Portugal estavam agendadas marchas em Lisboa, Porto, Coimbra, Vila Real, Faro, Braga, Aveiro, Setúbal, Viseu, Bragança, Barcelos e Madeira.

Ainda em Lisboa teria lugar outro evento que cativa pessoas de todo o País e não só, o Arraial Lisboa Pride organizado pela ILGA Portugal e que tem lugar na Praça do Comércio.

Os organizadores das marchas encontraram outras formas de celebrar o Orgulho LGBTI+, sobretudo usando as novas tecnologias. A suspensão deu também aso a um olhar da sua forma de realização.

Um dos assuntos que saltou para cima da mesa foi a representação de empresas nas marchas que até agora tem sido aceite de bom grado. Abriu-se então uma discussão dado que essas representações, mais do que seria desejável, serem meras operações de marketing e de aproveitamento de um nicho de mercado muito apetecível.

Não defendo que o ser gay friendly esteja na moda. Acredito que a maior aceitação e abertura da sociedade, sendo em grande parte fruto dos Prides, abre portas a um politicamente correcto que se torna para as empresas agradável e sem compromissos.

As marchas e outros eventos são também actos políticos para que a comunidade LGBTI+ se una, celebrando o orgulho gay assim como lutar pela igualdade de direitos individuais e da comunidade LGBTI+. Quem trava essas lutas inerentemente fá-lo pelos direitos de outras minorias, indexadas aos direitos, liberdades e garantias como o racismo, a xenofobia, a defesa dos migrantes, refugiados e das diferentes etnias.

Ora o aproveitamento por parte de empresas nas Marchas vai contra estes princípios da sua existência. Mas a solução não passará por não aceitar a sua participação, mas sim regulamentá-la.

Assim a participação de uma empresa nas marchas, deverá ser visto como ‘prémio’ ou ‘recompensa’ pelo que esta realizou e desenvolveu ao longo do ano a favor da comunidade LGBTI+ como a aceitação e defesa da igualdade, a não descriminação de sexos, sexualidades e géneros, etc…

Deveria ser elaborado um regulamento para aceitação de candidaturas com os pressupostos dos direitos adquiridos e na defesa do conjunto de medidas que ainda falta alcançar. Uma vez aceite, deveria essa empresa exibir obrigatoriamente um símbolo junto do seu logotipo afim ser público o seu apoio à defesa da comunidade LGBTI+.

Após fiscalização e balanço das iniciativas e uma vez cumpridos os compromissos aceites no acto da inscrição, ser-lhe-ia permitido participar nas marchas.

Seria desejável que se aplicasse a todas a marchas dos País. Para tanto, teria que se constituir um grupo de trabalho, com representação nacional, para elaborar o regulamento para a aceitação da inscrição.

Creio que assim seria controlável o possível aproveitamento meramente comercial das empresas apresentando-se como gay friendly.

Se as empresas querem estar presentes é porque há potencial comercial e institucional.
Esse potencial é criado pela nossa força, determinação, união e por acreditarmos que lutando conseguiremos manter e adquirir direitos que são tão naturais quanto a nossa existência como comunidade.

MIGUEL RODEIA

 

Marcha do Orgulho LGBTQI+

14/06/2020

‘Pena seres gay’, ‘acho que ela (a mãe) fica triste com as tuas figuras’ ou ‘envergonhas a tua família’. Foi com estas frases que Rui Maria Pêgo, o ‘nosso gay fofinho’ como lhe chamo, se viu recentemente confrontado numa rede social.

Não, não tenho pena que haja quem pense assim. Tenho sim que lamentar que em Portugal não se ensine a respeitar as diferenças individuais, tarefa que cabe aos encarregados de educação não à escola.

Respeito, um princípio cada vez mais raro, muita vez confundido com o ignorar, não ligar, virar a cara, não querer ver. Respeitar é reconhecer, é aceitar, é não repudiar, é não atacar.


Há quem questione, sobretudo no seio das pessoas LGBTQI+, a existência do Mês do Orgulho ou da Marcha do Orgulho LGBTQI+. Será que estas pessoas mesmo fazendo parte desta comunidade já foram alvo de discriminação, de gozo, de insulto, de agressão? Não sei. Sei que a segregação está de tal forma enraizada que nem damos por isso no dia-a-dia. No restaurante estava um casal gay a fazer muito barulho… Ou, aquela com ar de Maria rapaz deve ser lésbica… Estas afirmações discriminatórias estão no nosso subconsciente. Não interessa se é gay ou não o casal que fazia barulho no restaurante, nem tão pouco que a partir aspecto de uma jovem se suponha a sua sexualidade.


Vejo na Geração Z alguns sinais de esperança. A Geração Y começou por aprender a conviver com as famílias com os pais divorciados e mais tarde com as famílias monoparentais. A Geração Z das famílias monoparentais começou a conviver com pais e mães homossexuais. Entretanto ao longo destes anos lutou-se pela autodeterminação, pela união de facto, pelo casamento homossexual, pela adopção por parte de homoxexuais casados ou não.

Todas estas lutas começaram na rua. Manifestações, abaixo assinados e sim, na Marcha do Orgulho LGBTQI+. Antes e depois da revolução de Abril em 1974 muitas pessoas lutaram, com sofrimento próprio, pelo direito de SER-SE. (Até parece simples!) As manifestações de Orgulho LGBTQI+ são necessárias pois ainda há muito a ser conquistado e nada está garantido. Olhemos o presente e futuro e veremos de como é fácil retroceder. Veja-se os casos dos Estados Unidos, Brasil, Rússia, Turquia, Polónia onde o SER-SE passou a significar segregado, perseguido, preso, desaparecido. Na Polónia estão a ser criadas regiões LGBT Free Zone (regiões livres de pessoas LGBT), nada mais do que cerca de um terço do seu território. Esta vaga de políticos populistas no Mundo está a fazer renascer velhos ódios às minorias ou aos mais desprotegidos. O futuro das políticas de integração social, estão a ficar comprometidas em muitos países. Por tudo isto, sim, é preciso o Mês do Orgulho ou a Marcha do Orgulho LGBTQI+ e já agora com mais pessoas nas ruas para que haja mais vozes se ouçam e que deixem bem claro que estamos preparados para lutar não só por lutar pelo que falta alcançar, mas também pela manutenção do já conquistado. Este ano não haverá marchas nem arraiais devido a pandemia do COVID-19. A Comissão Organizadora da Marcha do orgulho LGBTI+ de Lisboa decidiu não a realizar da forma habitual. Leva a cabo a iniciativa CONTINUAR A MARCHAR que usa os fundos da realização da Marcha para o apoio a pessoas que necessitam de apoio devido à pandemia COVID-19. Assim presta ajuda a pessoas que se encontram a tomar medicação regular, alimentação e outro tipo de apoios como ir às compras para pessoas de risco e mais.


A Comissão da Marcha resolveu abranger não só pessoas LGBTI+ mas também outras minorias como migrantes, refugiadas, trabalhadoras do sexo e cigana. Bem hajam pela iniciativa. Que orgulho ser gay!


MIGUEL RODEIA